Rússia procura novas influências na África Austral e redefine relações com Angola

A Rússia está a intensificar a sua presença diplomática e estratégica na África Austral, apostando no reforço das relações com Moçambique e a República Democrática do Congo (RDC), numa altura em que Angola se aproxima cada vez mais dos Estados Unidos e da União Europeia. A avaliação é do investigador Rui Verde, que considera que Moscovo está a diversificar os seus parceiros na região e a redefinir a sua estratégia de influência no continente.

Numa análise publicada na página do CEDESA, centro de estudos e pesquisa sobre Angola, o jurista examina os resultados da III Cimeira Rússia-África, realizada em Moscovo, nos dias 28 e 29 de Outubro, destacando os entendimentos alcançados com Maputo e Kinshasa. “Até às eleições gerais de 2027, Angola já pouco mais fará em termos de política externa. A partir daí, terá de avaliar os seus caminhos internacionais e as suas alianças num mundo em rápido movimento”, sintetiza.

Para Rui Verde, o encontro ultrapassou a dimensão protocolar e representou um novo impulso da diplomacia russa na África Austral. Na sua perspectiva, enquanto Angola reforça os laços com os países ocidentais, a Rússia procura consolidar posições em territórios estratégicos que rodeiam o país.

O investigador considera que esta evolução poderá traduzir-se num relativo enfraquecimento da posição angolana no relacionamento com Moscovo, que durante décadas teve em Luanda um dos seus principais aliados no continente africano.

Um dos sinais desta reaproximação é a visita do Presidente moçambicano, Daniel Chapo, à capital russa. A deslocação permitiu aprofundar a cooperação bilateral em áreas como energia, mineração, agricultura, transportes, educação, ciência e tecnologias de informação.

Contudo, Rui Verde atribui particular importância aos entendimentos no domínio da segurança, nomeadamente à formação militar e ao combate ao terrorismo na província de Cabo Delgado. Na sua análise, a revitalização da cooperação militar entre Moscovo e Maputo constitui um dos principais resultados políticos da visita.

A vertente energética representa igualmente um eixo relevante desta aproximação. Moçambique, que possui importantes reservas de gás natural, poderá reforçar os contactos com empresas russas como a Gazprom, a Rosneft e a Novatek, num sector de crescente importância estratégica para o país.

Segundo o investigador, a posição geográfica moçambicana, o acesso ao oceano Índico e o potencial energético tornam o país uma plataforma de interesse para a projecção russa na África Austral.

RDC ganha importância na estratégia de Moscovo

A aproximação à República Democrática do Congo poderá ter implicações ainda mais relevantes para Angola, segundo Rui Verde.

Durante a visita do Presidente congolês, Félix Tshisekedi, a Moscovo, foram assinados três instrumentos de cooperação bilateral nos domínios económico, comercial, científico,

tecnológico, da saúde e da educação. Os entendimentos procuram institucionalizar uma parceria que poderá ampliar a presença russa num país onde a influência de Moscovo tem sido historicamente inferior à da China, dos Estados Unidos e da União Europeia.

A Presidência congolesa enquadrou a deslocação numa estratégia de diversificação das alianças internacionais, tendo também manifestado interesse num maior envolvimento russo nos esforços de estabilização do leste da RDC.

Para Rui Verde, esta evolução representa uma alteração importante no quadro diplomático regional, uma vez que Angola, os Estados Unidos, a França, a Bélgica e as Nações Unidas têm desempenhado, historicamente, um papel relevante nas questões de segurança congolesas.

Angola redefine a sua posição estratégica no relacionamento com Moscovo

A mudança de posicionamento de Luanda constitui outro elemento central da análise. Desde o início da guerra na Ucrânia, Angola tem procurado distanciar-se progressivamente de Moscovo, aprofundando simultaneamente a cooperação com Washington e Bruxelas.

O Corredor do Lobito tornou-se, neste contexto, um dos principais símbolos da aproximação estratégica angolana aos parceiros ocidentais.

Na interpretação de Rui Verde, a resposta russa passa agora por desenvolver uma rede de relações alternativas na região, reduzindo a dependência de Angola como principal parceiro na África Austral.

O investigador ressalva que esta evolução não representa uma ameaça directa a Angola nem significa um isolamento diplomático imediato. Contudo, entende que Moscovo está a construir novas plataformas de influência regional.

Nesta estratégia, Moçambique oferece acesso ao Índico, recursos energéticos e possibilidades de cooperação militar, enquanto a RDC representa uma oportunidade de aproximação às reservas de minerais estratégicos e a um território de grande dimensão e importância geográfica.

A conclusão de Rui Verde é que a Rússia está a reposicionar-se na África Austral através de uma estratégia de diversificação de alianças, na qual Angola deixou de ocupar o lugar privilegiado que manteve durante várias décadas.

Notícias relacionadas
Comentários
Loading...