Xanana Gusmão alerta que Inteligência Artificial pode ameaçar soberania dos Estados
O primeiro-ministro de Timor-Leste, Xanana Gusmão, alertou hoje, segunda-feira, dia 24, para os riscos que a Inteligência Artificial (IA) pode representar para a soberania dos Estados, numa altura em que a tecnologia torna o conhecimento mais acessível, mas também facilita a criação de burlas, fraudes e campanhas de desinformação.
Discursando na abertura da Cimeira Ciência para o Desenvolvimento, que decorre até terça-feira no Centro de Convenções de Díli, Xanana Gusmão advertiu que a IA permite tornar conteúdos falsos cada vez mais convincentes, através da criação de vozes, imagens e vídeos realistas de acontecimentos que nunca ocorreram.
O primeiro-ministro considerou que o problema não está apenas na possibilidade de as pessoas acreditarem em informações falsas, mas também no risco de começarem a duvidar de acontecimentos e informações verdadeiras.
Para Xanana Gusmão, a questão assume uma dimensão ainda mais profunda quando se analisa a relação entre o poder das grandes empresas tecnológicas e a soberania dos países.
O governante timorense questionou o que poderá acontecer numa nova era tecnológica “quando empresas se tornam mais ricas do que países” e passam a controlar tecnologias de que dependem governos, empresas e comunidades.
Conhecimento transformado em negócio
Xanana Gusmão criticou igualmente o facto de empresas de Inteligência Artificial concentrarem grandes quantidades de conhecimento humano e disponibilizarem esse conhecimento mediante subscrições.
Segundo o primeiro-ministro, trata-se de um processo em que conhecimentos construídos ao longo de séculos pela humanidade estão a ser “apropriados e comercializados”.
Apesar dos riscos, Xanana Gusmão reconheceu que a IA fará progressivamente parte do quotidiano das populações, mas sublinhou que esta tecnologia representa apenas uma componente de uma transformação científica e tecnológica muito mais abrangente.
O principal desafio para Timor-Leste, defendeu, será garantir que o país dispõe do conhecimento e das competências necessárias para compreender estas mudanças e utilizá-las em benefício do seu próprio desenvolvimento.
Nesse sentido, destacou a necessidade de reforçar a educação científica e técnica, considerando o progresso científico uma ferramenta essencial para melhorar as condições de vida da população.
Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro defendeu que o avanço tecnológico não deve retirar espaço à dimensão humana. “Devemos continuar a deixar espaço para a poesia da vida”, afirmou.
Timor-Leste quer passar de consumidor a produtor de conhecimento
Organizada pela Presidência e pelo Governo timorenses, a Cimeira Ciência para o Desenvolvimento reúne vários laureados com o Prémio Nobel, vencedores do Prémio Turing e cientistas de diferentes áreas.
O Prémio Turing, considerado o “Prémio Nobel da Computação”, é atribuído anualmente pela Association for Computing Machinery, nos Estados Unidos, a personalidades que tenham dado contributos de importância técnica duradoura e significativa para a área da computação.
O galardão recebeu o nome de Alan Turing (1912-1954), matemático britânico considerado um dos pioneiros da ciência da computação.
Segundo a Presidência timorense, o encontro é o maior do género alguma vez realizado no sudeste asiático.
A cimeira pretende reforçar o perfil internacional de Timor-Leste e promover o desenvolvimento do país através da educação, da diplomacia e da cooperação internacional.
Na sessão de abertura, o Presidente timorense defendeu que o encontro representa uma oportunidade para o país assumir um novo papel no domínio do conhecimento.
“Esta cimeira não é apenas um encontro, é uma declaração de que Timor-Leste está pronto para passar de consumidor a produtor de conhecimento”, afirmou, defendendo a transformação da diversidade natural e humana do país em soluções para áreas como a agricultura, a saúde, a educação e a promoção de uma prosperidade sustentável.
A Cimeira Ciência para o Desenvolvimento decorre em simultâneo com a Sci-Tech Expo 2026, onde são apresentadas soluções tecnológicas desenvolvidas, entre outros participantes, por jovens universitários e adaptadas às necessidades e ao contexto de Timor-Leste.