Angola e Cuba revisitam legado de Fidel Castro em conferência internacional
A Academia Diplomática Venâncio de Moura promove, na próxima sexta-feira, dia 28, em Luanda, uma conferência internacional dedicada ao centenário do nascimento de Fidel Castro, antigo líder cubano cuja trajectória política ficou profundamente ligada à história contemporânea de Angola.
O encontro contará com intervenções do embaixador de Cuba em Angola, Óscar León González, e do deputado à Assembleia Nacional Mário Pinto de Andrade, segundo informação de fonte oficial.
A iniciativa realiza-se num ano em que diversos países têm assinalado os 100 anos do nascimento de Fidel Castro, figura central da Revolução Cubana e antigo primeiro-ministro e Presidente de Cuba, funções que exerceu durante várias décadas.
Em Havana, entre 10 e 13 de Agosto, realizou-se o I Colóquio Internacional “Fidel: Legado e Futuro”, promovido pelo Centro Fidel Castro Ruz, numa das principais iniciativas evocativas do centenário.
Uma relação construída durante a luta de libertação
A escolha de Luanda para acolher a conferência ganha particular significado devido aos estreitos laços históricos entre Angola e Cuba, construídos sobretudo a partir do período da luta pela independência e posteriormente reforçados no plano político, militar e económico.
A presença cubana em Angola intensificou-se em 1975, ainda antes da proclamação da independência, através do envio de instrutores e militares no quadro da Operação Carlota. A missão foi lançada por Cuba para apoiar o MPLA perante a ofensiva de forças do Zaire e da África do Sul, num momento particularmente crítico do processo de descolonização.
Poucos dias depois da proclamação da independência, Cuba tornou-se o primeiro país a enviar para Luanda um representante diplomático com plenos poderes. A 15 de Novembro de 1975, o embaixador cubano Oscar Oramas e o então ministro angolano das Relações Exteriores, José Eduardo dos Santos, formalizaram o estabelecimento das relações diplomáticas entre os dois Estados.
Em Fevereiro de 1976, Angola e Cuba deram novo passo na consolidação dos seus laços com a assinatura do Acordo Geral de Cooperação. Nesse mesmo ano, o primeiro Presidente angolano, António Agostinho Neto, efectuou uma visita de Estado a Cuba, aprofundando a cooperação entre os dois países.
Cuito Cuanavale como símbolo
A dimensão militar da cooperação cubana assumiu particular relevância durante a guerra civil angolana, atingindo um dos seus momentos mais marcantes na Batalha do Cuito Cuanavale, entre 1987 e 1988.
Cuba reforçou então a sua presença militar em Angola, com o envio de milhares de soldados, meios blindados, artilharia e aeronaves para apoiar as forças governamentais no confronto com a UNITA e as forças sul-africanas.
O conflito é frequentemente considerado um momento decisivo na evolução política da África Austral, tendo contribuído para acelerar as negociações que conduziriam à independência da Namíbia e, posteriormente, ao desmantelamento do regime de apartheid na África do Sul.
Para Angola e Cuba, Cuito Cuanavale tornou-se, por isso, um dos principais símbolos da cooperação político-militar estabelecida entre os dois países.
Cooperação mantém-se cinco décadas depois
Passados mais de 50 anos sobre a independência de Angola, os dois países continuam a manter uma relação de cooperação em áreas como a saúde, a educação e a formação de quadros.
Ao longo das últimas décadas, milhares de médicos, professores, técnicos e outros profissionais cubanos trabalharam em Angola, contribuindo para o desenvolvimento de diferentes sectores.
A conferência promovida pela Academia Diplomática Venâncio de Moura insere-se, assim, num quadro de evocação histórica e de reflexão sobre as relações entre Angola e Cuba. A iniciativa permitirá igualmente revisitar o papel desempenhado por Fidel Castro na política externa cubana e, em particular, na intervenção de Havana nos conflitos que marcaram a história de Angola e da África Austral.
A realização do encontro numa instituição ligada ao Ministério das Relações Exteriores angolano acrescenta uma dimensão diplomática à homenagem, colocando em debate não apenas a figura de Fidel Castro, mas também o legado de uma relação bilateral que permanece activa mais de meio século depois da independência de Angola.