África Ocidental tornou-se no novo epicentro mundial do terrorismo, refere relatório da ONU

Um relatório do Comité de Combate ao Terrorismo do Conselho de Segurança das Nações Unidas indica que o cenário global do terrorismo sofreu uma mudança significativa, com a África Ocidental a emergir como novo epicentro da instabilidade. O documento revela que apenas dez países foram responsáveis por 90% das mortes por terrorismo no último ano, dos quais quatro se encontram nesta região africana.

O relatório, intitulado “Perspectivas da Sociedade Civil”, destaca uma degradação severa da segurança na Bacia do Lago Chade e no Golfo da Guiné, onde a violência já ultrapassou as fronteiras do Sahel e começa a projectar-se sobre nações como Moçambique e o Quénia.

No continente, actuam grupos como o Estado Islâmico na África Ocidental, o Boko Haram e o Jama’a Nusrat ul-Islam wa al-Muslimin, que têm vindo a alargar as suas operações em contextos de governação frágil, fronteiras porosas e profundas carências socioeconómicas das populações.

Para além de uma luta ideológica, o terrorismo na região fundiu-se com o crime organizado, criando um nexo lucrativo e destrutivo que se alimenta do tráfico de drogas e armas, de raptos por resgate e da exploração mineira ilegal.

Esta combinação de actividades ilícitas serve de combustível para uma violência que, em 2025, concentrou no Sahel mais de metade das mortes globais por terrorismo, um contraste com os meros 1% registados em 2007.

É necessária abordagem humanizada e multissectorial

A resposta militarizada tem gerado novos problemas. A sociedade civil alertou que medidas antiterroristas excessivamente rígidas estão a ser desviadas para fins políticos, resultando em prisões arbitrárias, execuções extrajudiciais e na estigmatização de minorias.

“O relatório enfatiza que só uma abordagem humanizada e multissectorial poderá travar a expansão do terrorismo e proteger o espaço cívico de uma ameaça que é agora verdadeiramente transcontinental.”

Em muitos casos, leis desenhadas para proteger o Estado têm sido instrumentalizadas para silenciar a dissidência e criminalizar defensores de direitos humanos. Esta abordagem securitária tem-se provado ineficaz e contraproducente, acentuando o sentimento de injustiça que alimenta a radicalização que se pretende combater.

Para inverter esta trajectória, o relatório defende uma mudança urgente de paradigma. A solução passa por estratégias que equilibrem a segurança com a protecção rigorosa das liberdades civis, integrando a sociedade civil não apenas como observadora, mas como peça fundamental na recolha de dados e na formulação de políticas.

É crucial que os Estados apostem em reformas judiciais profundas, na melhoria da coordenação fronteiriça e em programas de reabilitação para ex-combatentes, garantindo a participação das comunidades locais na construção de uma paz duradoura.

O documento sublinha que só uma abordagem humanizada e multissectorial poderá travar a expansão do terrorismo e proteger o espaço cívico de uma ameaça que é agora verdadeiramente transcontinental.

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