Papa despede-se de Angola após três dias de grandes manifestações de fé

Os angolanos despediram-se hoje de manhã, terça-feira, dia 21, do Papa Leão XIV, que deixou o país após uma visita apostólica de quatro dias, marcada por fortes apelos à paz, reconciliação e esperança.

Durante a sua estadia em Angola, o Sumo Pontífice cumpriu um intenso programa pastoral que o levou às províncias de Luanda, Icolo e Bengo e Lunda Sul.

Em cada uma das etapas, o líder da Igreja Católica reuniu-se com milhares de fiéis, celebrou missas campais, celebrações eucarísticas, rezou o terço e manteve encontros com autoridades civis, religiosas e representantes da sociedade civil.

Centralidade do Kilamba

Um dos momentos mais marcantes da visita foi a celebração da missa campal na Centralidade do Kilamba, província de Icolo e Bengo, que reuniu uma multidão de 100 mil crentes vindos de diferentes pontos do país e do estrangeiro.

Perante as mais de 100 mil pessoas que participaram na missa campal, o Papa Leão XIV estabeleceu uma analogia entre o evangelho dos discípulos de Emaús e a história de Angola, um “país belíssimo e ferido, que tem fome de sede, de esperança, de paz, de fraternidade.”

“Na verdade, ao longo do caminho, a conversa dos dois discípulos, que recordam com desânimo o que aconteceu ao seu Mestre, traz à memória a dor que marcou o vosso país. Uma longa guerra civil, com o seu rasto de inimizades e divisões, de recursos desperdiçados e de pobreza”, afirmou o Sumo Pontífice.

Segundo o Papa Leão XIV, “quando durante muito tempo se permanece imerso numa história tão marcada pela dor, corre-se o mesmo risco dos dois discípulos de Emaús: perder a esperança e ficar paralisado pelo desânimo”.

De acordo com o Santo Padre, “as consequências ainda difíceis que os angolanos suportam”, nomeadamente os problemas sociais e económicos e as diversas formas de pobreza, exigem a presença de uma Igreja que saiba estar próxima do caminho e ouvir o clamor dos seus filhos.

“Uma Igreja que, com a luz da Palavra e o alimento da Eucaristia, saiba reactivar a esperança perdida; uma Igreja feita de pessoas como vós, que se doam, tal como Jesus parte o pão para os dois discípulos de Emaús”, referiu.

O Sumo Pontífice afirmou que Angola precisa de bispos, sacerdotes, missionários, religiosas e religiosos, leigas e leigos que tenham no coração o desejo de repartir a sua vida, doá-la uns aos outros, e de se empenharem no amor e no perdão mútuos.

“De construir espaços de fraternidade e de paz, de realizar gestos de compaixão e solidariedade para com quem mais precisa”, acrescentou, sublinhando a necessidade de construir um país “onde as antigas divisões sejam superadas para sempre, onde o ódio e a

violência desapareçam, onde a chaga da corrupção seja curada por uma nova cultura de justiça e partilha”.

Muxima

No dia seguinte, domingo dia 19, a visita do Sumo Pontífice ao santuário mariano de Nossa Senhora da Muxima, ficou marcada por um ambiente de grande júbilo e emoção. No local, o Papa presidiu à oração do Santo Rosário (terço), onde destacou a centralidade da figura de Maria como exemplo de amor e proximidade.

Perante uma multidão de fiéis, o Papa sublinhou que a oração do terço não pode ser separada da vida concreta nem da responsabilidade de cuidar dos mais vulneráveis: “Rezar o terço é comprometer-nos a amar cada pessoa com coração maternal, especialmente os mais pobres. Amá-los a todos da mesma forma, empenhando-nos, sem limites, para que a ninguém falte amor e a comida necessária para viver com dignidade e ser feliz.”

O Sumo Pontífice referiu-se também ao projecto em curso de construção de um novo santuário na Muxima, apresentado como sinal de abertura ao futuro e de acolhimento, especialmente para os jovens. “Neste lugar, está em curso um grande projecto: a construção de um novo santuário, capaz de acolher todos os que aqui vêm em peregrinação. Especialmente os jovens. Tomai isso como um sinal.”

E aos jovens deixou um apelo à construção de uma sociedade mais justa: “A vós, a Mãe do Céu confia o grande projecto de construir um mundo melhor, acolhedor, onde não haja mais guerras, nem injustiças, nem miséria, nem desonestidade.”

Leão XVI insistiu que a fé cristã deve traduzir-se na vitória do amor sobre todas as formas de violência e divisão. “O amor deve triunfar, não a guerra. É isso que nos ensina o coração de Maria.”

A celebração terminou com o líder da Igreja Católica a expressar-se em kimbundu, língua angolana, “Mama Muxima Tueza Kukue, Mama Muxima tutambulule” (“Mãe do Coração, viemos até Vós para oferecer-Vos tudo.”), para júbilo dos fiéis que o aplaudiram vivamente.

Saurimo

Ontem, segunda-feira, dia 20, em Saurimo, capital da província da Lunda Sul – foi a primeira vez que um Sumo Pontífice se deslocou ao leste de Angola – os pontos altos foram a deslocação a um centro de acolhimento de idosos e a celebração de uma missa na esplanada da cidade.

No lar de idosos de Muangueje, o Papa manifestou apreço pelas iniciativas das autoridades angolanas em favor dos idosos, defendendo que estes não devem ser apenas apoiados, mas escutados, porque “guardam a sabedoria de um povo”. Segundo Leão XIV, os idosos não devem ser apenas assistidos, “mas, em primeiro lugar” devem ser escutados, pois guardam “a sabedoria de um povo”. E acrescentou: “Temos de lhes ser gratos, pois enfrentaram grandes dificuldades pelo bem da comunidade.”

Já na celebração da missa, perante 50 mil fiéis, Leão XIV apelou à fé em Cristo, alertando que “quando a injustiça corrompe os corações, o pão de todos torna-se propriedade de poucos.”

“Com efeito, hoje vemos que muitos desejos das pessoas são frustrados pelos violentos, explorados pelos prepotentes e enganados pela riqueza. Quando a injustiça corrompe os corações, o pão de todos torna-se propriedade de poucos”, declarou.

O Papa que se referiu ao “comércio supersticioso, no qual Deus se torna um ídolo que se procura apenas quando nos serve e enquanto nos serve”, salientou que Cristo “não rejeita esta procura insincera, mas incentiva a sua conversão.”

Hoje, terça-feira, cerca das 9h15, após se despedir do casal presidencial e de autoridades civis e religiosas, o avião papal deixou Luanda rumo a Malabo na Guiné-Equatorial, a última etapa do périplo pelo continente africano, que termina na quinta-feira.

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