Vera Daves aponta estabilidade política como factor decisivo para atrair investimento em África

A ministra das Finanças de Angola, Vera Daves de Sousa, considera que a estabilidade política, a previsibilidade das decisões governativas e a solidez das instituições são condições indispensáveis para reforçar a confiança dos investidores e garantir a entrada de capital privado no continente africano.

A governante defendeu esta posição ontem, terça-feira, dia 3, em Luanda, durante a VI edição da Cimeira da Indústria Financeira Africana (AFIS 2026), no painel subordinado ao tema «Fazendo o capital contar: transformar a força financeira de África num motor de crescimento e emprego».

Na sua intervenção, Vera Daves identificou a incerteza associada aos ciclos políticos e eleitorais como um dos obstáculos à captação de investimento em África. Segundo a ministra, a proximidade de eleições tende a levar muitos investidores a adiar decisões e a suspender projectos, criando períodos de menor actividade económica.

A titular das Finanças classificou esta situação como «o elefante na sala» do desenvolvimento africano, defendendo a criação de mecanismos institucionais e jurídicos que assegurem a continuidade das políticas públicas e a estabilidade das regras, independentemente das mudanças de governo.

Na perspectiva da governante, a atracção de capital não depende apenas da existência de oportunidades de negócio ou de incentivos fiscais. É igualmente necessário garantir um ambiente de confiança, no qual os investidores tenham a segurança de que as regras não serão alteradas arbitrariamente e de que os compromissos assumidos pelo Estado serão respeitados ao longo do tempo.

A consolidação dos indicadores macroeconómicos foi outro dos aspectos destacados por Vera Daves como determinante para estimular a participação do sector privado. A ministra apontou o controlo da inflação, a sustentabilidade da dívida pública, o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) não petrolífero e o aumento das receitas fiscais provenientes dos sectores não petrolíferos como elementos fundamentais para reforçar a capacidade económica dos países.

A este propósito, apresentou a experiência de Angola, destacando os progressos alcançados no processo de estabilização macroeconómica e as medidas em curso para diversificar a economia e alargar as fontes internas de arrecadação de receitas.

Infra-estruturas exigem maior participação privada

A necessidade de acelerar a construção de infra-estruturas estratégicas foi igualmente abordada pela ministra, que destacou a importância das estradas, pontes, caminhos-de-ferro e redes de distribuição de energia para o desenvolvimento económico do continente.

Perante a dimensão dos recursos necessários para concretizar estes projectos, Vera Daves defendeu uma maior intervenção do sector privado, através de instrumentos como as parcerias público-privadas, as concessões e o mercado de capitais.

A governante chamou ainda a atenção para a importância da cooperação entre países vizinhos na concretização de empreendimentos de dimensão regional, nomeadamente barragens, linhas de transmissão eléctrica e outras infra-estruturas transfronteiriças, capazes de impulsionar a integração económica africana.

Estes projectos, sustentou, devem assentar em modelos de cooperação que assegurem benefícios para todas as partes envolvidas e permitam mobilizar recursos de instituições financeiras africanas e internacionais.

A digitalização da Administração Pública foi também apontada como uma prioridade, tendo em conta o seu potencial para melhorar a prestação de serviços, aumentar a eficiência administrativa e alargar a base tributária, reforçando a capacidade dos Estados para mobilizarem receitas próprias.

Corredores do Lobito e do Namibe no radar dos investidores

À margem da cimeira, Vera Daves considerou que a realização do AFIS 2026 em Luanda constitui uma oportunidade para Angola divulgar o seu potencial económico, aprofundar relações com instituições financeiras e estabelecer parcerias capazes de impulsionar novos projectos de investimento.

A ministra salientou que a presença de representantes de instituições financeiras africanas e internacionais permite dar maior visibilidade ao mercado angolano e identificar possibilidades de financiamento para iniciativas dos sectores público e privado.

Nas reuniões bilaterais realizadas durante o encontro, foram discutidas oportunidades associadas a projectos estruturantes, com particular destaque para os corredores do Lobito e do Namibe, assim como para as perspectivas de investimento nas novas províncias do país.

A governante manifestou expectativa de que os contactos estabelecidos durante a cimeira possam traduzir-se em novas operações de financiamento e parcerias com instituições interessadas em participar no processo de transformação económica de Angola.

Recorde-se que a VI edição do Africa Financial Summit decorre em Luanda, nos dias 3 e 4 de Novembro, reunindo mais de 1.250 representantes de governos, bancos centrais, instituições financeiras, seguradoras e investidores internacionais.

Organizado pelo Jeune Afrique Media Group, em parceria com a Corporação Financeira Internacional (IFC), o encontro realiza-se pela primeira vez na África Austral e num país de língua portuguesa, colocando Angola no centro do debate sobre o futuro do financiamento e da integração financeira do continente.

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