Projectos de energia nuclear em África atraem cada vez mais investidores
No meio de uma procura crescente de energia e de um impulso global para soluções com baixo teor de carbono, as ambições de África em matéria de energia nuclear, há muito estagnadas, estão agora a ganhar um novo impulso, refere a publicação electrónica ‘Business Insider Africa’.
Os investidores internacionais e os parceiros de desenvolvimento estão a mostrar um interesse renovado no financiamento de infra-estruturas de energia nuclear em toda a África, considerando-a como um caminho viável para a segurança energética, o crescimento industrial e a resiliência climática.
À medida que o continente enfrenta défices crescentes de energia e a necessidade urgente de fazer a transição para fontes mais limpas e sustentáveis, a energia nuclear – particularmente os Pequenos Reactores Modulares (SMR) e os Micro Reactores (MR) – está a emergir como uma opção promissora. No entanto, o financiamento continua a ser um grande obstáculo à sua adopção generalizada.
Na Cimeira de Inovação da Energia Nuclear em África, realizada a 30 de Junho em Kigali, no Ruanda, reuniram-se decisores políticos, investidores e especialistas do sector energético para discutir o papel da energia nuclear na transição para fontes limpas no continente, com um enfoque central no financiamento e no reforço das capacidades locais.
A cimeira também sublinhou a necessidade de colmatar o défice de competências, tendo o protocolo da Zona de Comércio Livre Continental Africana sobre a livre circulação de pessoas sido identificado como um instrumento estratégico para promover a educação e a formação transfronteiriças no domínio das ciências nucleares.
O director-geral da Agência Internacional da Energia Atómica (AIEA), Rafael Grossi, reafirmou o compromisso da instituição em apoiar os países africanos no desenvolvimento de programas de energia nuclear pacífica.
Na ocasião, o responsável sublinhou que a plena integração do continente na transição mundial para a energia com baixas emissões é crucial, afirmando que “nada impede África de reclamar o seu lugar” no panorama energético mundial.
Rafael Grossi sublinhou o potencial do continente como actor-chave no futuro da energia global, destacando que a energia limpa e fiável “já não é um luxo, mas uma necessidade premente” para o continente.
Embora reconhecendo que a energia nuclear pode não ser adequada para todos os países, o responsável sublinhou que uma economia global com baixas emissões de carbono seria “impossível sem ela”. O comissário salientou também o interesse crescente pelos pequenos reactores modulares (SMR), pelos micro-reactores e pelas tecnologias nucleares tradicionais.
Rafael Grossi acrescentou que a AIEA está pronta para trabalhar “de mãos dadas com África na sua jornada em direcção a um futuro nuclear seguro e sustentável”.
Por sua vez, o ministro de Estado para os Investimentos Públicos do Ruanda, Tesi Rusagara, exortou as nações africanas a explorarem os mercados de capitais nacionais, referindo que a dependência histórica do continente em relação ao financiamento externo em condições
favoráveis está a diminuir, necessitando de uma mudança estratégica no sentido de alavancar os recursos financeiros nacionais e regionais.
Entretanto, África enfrenta um significativo défice anual de financiamento de infra-estruturas de 100 mil milhões de dólares, de acordo com o Banco Africano de Desenvolvimento. Este desafio é exacerbado por um clima global de pessimismo no financiamento do desenvolvimento, com declínios projectados na assistência oficial ao desenvolvimento.
No entanto, Stéphane Ouedraogo, sócio-gerente da Stallion Capital Africa, observou que instituições como o Banco Mundial estão cada vez mais abertas ao financiamento de projectos nucleares, trazendo não só capital, mas também credibilidade e mitigação de riscos.
À medida que países como o Quénia e o Ruanda exploram os SMR, a dinâmica nuclear de África está a ganhar força. A concretização deste potencial exigirá estratégias de financiamento coordenadas, apoio político e investimento em competências locais, e passos cruciais para a obtenção de energia sustentável e com baixo teor de carbono no continente.