ONU aponta para até 500 combatentes insurgentes em Cabo Delgado

A insurgência armada em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, aumentou para entre 400 e 500 combatentes, intensificou o recrutamento e apresenta sinais de expansão para o sul daquela província moçambicana, segundo relatório das Nações Unidas apresentado ao Conselho de Segurança.

Os dados constam do 38.º relatório da Equipa de Apoio Analítico e Monitorização de Sanções das Nações Unidas sobre o Estado Islâmico (Daesh), a Al-Qaeda e entidades associadas, de 10 de Agosto, a que a Lusa teve hoje acesso, elaborado com base em informações recolhidas até 9 de Junho de 2026.

O documento foi preparado para o Comité de Sanções do Conselho de Segurança criado pelas resoluções 1267, 1989 e 2253 e, no capítulo dedicado à África Central e Austral, a ONU refere que a força da Ahlu Sunnah Wal Jamaa (ASWJ), grupo associado ao Estado Islâmico que atua em Cabo Delgado, “aumentou para um número estimado de 400 a 500 combatentes”, apesar das operações militares multinacionais em curso na província.

Acrescenta que, ainda entre Dezembro de 2025 e Março de 2026, o grupo “intensificou os esforços de recrutamento”, apelando à adesão de novos elementos e explorando “rotas de migração ilegal para movimentar novos recrutas regionais”.

A actividade insurgente continua concentrada nos distritos de Macomia, Mocímboa da Praia, Muidumbe, Palma, Quissanga, Meluco e Nangade, mantendo actividade considerada negligenciável nas províncias vizinhas de Niassa e Nampula, que registaram ataques em 2025, refere ainda o relatório.

Contudo, assinala que actividades emergentes nos distritos de Meluco e Montepuez, bem como em Ancuabe e Chiúre, “indicaram uma gradual expansão para sul”, sugerindo um alargamento geográfico da área de actuação do grupo.

O relatório identifica a área formada pelos distritos de Mocímboa da Praia, Macomia e Muidumbe como o principal centro operacional da ASWJ, devido às características do terreno.
Segundo a ONU, os insurgentes actuam normalmente em grupos de 10 a 15 combatentes para evitar a detecção, mas continuam capazes de realizar ataques coordenados em vários pontos em simultâneo.
Desde Janeiro, diz, ocorreram vários ataques ao longo do corredor da estrada N380, no distrito de Macomia.

Raptos são fonte de financiamento
A equipa de monitorização destaca o crescente interesse da organização por actividades marítimas, referindo que o grupo demonstrou interesse em “operações marítimas, incluindo extorsão e ataques contra embarcações civis”.

O relatório identifica a actual estrutura de liderança da organização, apontando Hassan Ulanga como líder, Farido Sulemane Arune como adjunto e responsável operacional, Suleimane Nguvu como facilitador logístico e especialista em explosivos, e Mamudo Ibraimo Dado como responsável pelas áreas financeira e logística.
Refere que a extorsão é a principal fonte de financiamento do grupo, nomeadamente no mar: “ASWJ continuou a extorquir barcos de pesca, camiões de transporte e o comércio de vida marinha, como pepinos-do-mar e cavalos-marinhos”.

O relatório acrescenta que continuam a ocorrer raptos para obtenção de resgates, normalmente entre 20 e 50 dólares, embora em alguns casos os montantes ultrapassem 500 dólares, dependendo do alvo.Os sistemas informais de transferência de valores permitem ao grupo movimentar pequenas quantias de forma recorrente, misturando-as com fluxos económicos legítimos da região e dificultando a sua detecção pelas autoridades.

O relatório conclui que, apesar da pressão militar exercida por forças moçambicanas e parceiros internacionais, a insurgência mantém capacidade de recrutamento, financiamento e adaptação operacional em Cabo Delgado.

Refira-se que a província de Cabo Delgado, no extremo norte de Moçambique, rica em gás e pedras preciosas como rubis, regista desde 2017 uma insurgência armada que já provocou cerca de 6.600 mortos e mais de 1,2 milhão de deslocados.

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