Inteligência Artificial pode ser uma saída para a falta de médicos em África

A cada vez mais desenvolvida inteligência artificial (IA) tem sido apontada como um factor de transformação dos cuidados de saúde em todo o mundo, não apenas em países desenvolvidos como os EUA, os europeus, o Japão ou a China.

Em África, a IA já está a ser utilizada em todo o continente para melhorar os cuidados de saúde, desde a gestão de bases de dados em Marrocos à leitura de genomas na África do Sul, passando pelo rastreio da Covid-19 na Etiópia ou pela análise de exames médicos no Gana.

“Nos últimos três anos, assistiu-se a um boom de pessoas que utilizam a IA para resolver problemas de saúde no continente”, afirma Ayomide Owoyemi, especialista em saúde pública e tecnologia da Universidade de Illinois, nos EUA, num longo artigo da Deutsche Welle (DW) África.

A tecnologia está a ajudar a lidar com os maiores desafios da região em matéria de cuidados de saúde, incluindo a malária, a tuberculose e o VIH/SIDA.

Diagnóstico da tuberculose em Moçambique

O diagnóstico de doenças tem sido, até agora, dos projetos de IA mais bem-sucedidos. Em Moçambique, por exemplo, os profissionais de saúde testaram a IA como forma de detectar a tuberculose numa prisão de alta segurança. Utilizaram máquinas de raios X portáteis ligadas a um programa de IA para diagnosticar a doença em pessoas em menos de cinco minutos, e com tanta precisão como os médicos. “Foi a primeira vez que se demonstrou que esta abordagem da inteligência artificial pode funcionar nas prisões. Agora, tem de ser alargada a todos os que dela necessitam e, em última análise, a todo o país”, considera Suvanand Sahu, director executivo adjunto da StopTB, que liderou o projecto em Moçambique.

A OMS estima que 10 milhões de pessoas desenvolvem a doença a nível mundial todos os anos, mas cerca de 3 milhões de pessoas não estão a receber os cuidados de saúde de que necessitam. “A tuberculose é a maior causa de morte entre todas as infecções e, embora a incidência global esteja a diminuir, não está a diminuir tão rapidamente como gostaríamos. A tecnologia está a evoluir e há muitas utilizações para ela nos cuidados de saúde – a redução do impacto global da tuberculose é uma delas”, disse Sahu.

Colmatar a falta de médicos

Um dos maiores benefícios da IA em África é ajudar os profissionais de saúde a fazer mais com recursos limitados. A IA pode preencher a lacuna deixada por médicos e outros profissionais de saúde altamente qualificados que deixam o continente para trabalhar noutras partes do mundo, disse à DW Ayomide Owoyemi.

“Um dos maiores desafios que enfrentamos actualmente no continente é o facto de os países não conseguirem manter a mão de obra no sector da saúde. A Nigéria perde muitos médicos que vão para países mais ricos. É uma batalha que não podemos ganhar porque as pessoas mudam-se para locais onde o salário é melhor”, acrescenta o especialista.

Manter os projectos em África

Um grande desafio é manter os benefícios dos projectos a longo prazo. Segundo Owoyemi, até agora, a maioria dos projectos na área da saúde foram estudos-piloto que raramente se traduziram em mudanças de longo prazo no sistema.

“Os programas são, na sua maioria, financiados por dois ou três anos a partir do estrangeiro e utilizam mão de obra externa. Depois disso, fazem as malas e vão-se embora. Mas se os governos africanos receberem financiamento, podem criar organizações e políticas que garantam que o programa se mantém vivo durante o máximo de tempo possível”, afirma.

Para o especialista, é importante que os países africanos comecem a criar fundos e agências específicas para gerir a integração a longo prazo da IA nos sistemas de saúde.

Com os governos e as organizações locais na liderança, poderiam concentrar-se nas prioridades dos cuidados de saúde, com projectos de IA definidos pelas necessidades locais e não pelo que os parceiros externos ditam. E os benefícios seriam muito mais vastos. Os projectos de cuidados de saúde com IA necessitam de trabalhadores qualificados e com formação, em sectores como a informática, a educação e a energia.

O baixo número de médicos significa que a maioria das pessoas que actualmente presta cuidados de saúde básicos são trabalhadores comunitários. “O que a IA pode fazer é aumentar o número de profissionais de saúde menos qualificados que têm estado a prestar cuidados de saúde. Isto é essencial nos próximos anos porque vamos continuar a perder médicos”, conclui Owoyemi.

Desafios de infraestruturas

A implementação de mais programas de cuidados de saúde traz muitos desafios. Um deles é a infraestrutura limitada: grandes partes de África não têm suficiente acesso à Internet para executar projectos de IA em grande escala. “A maior dificuldade é implantar sistemas de computação para os profissionais de saúde. Estes trabalham em locais onde as infraestruturas são fracas: sem energia, sem computadores. Por isso, temos de ponderar como implementar a IA”, refere Owoyemi.

Outro desafio são os próprios dados. A maior parte dos algoritmos de aprendizagem automática são testados em bases de dados armazenadas fora de África, o que limita a sua utilização na resolução de problemas de saúde específicos da população africana.

Um exemplo conhecido é o da genética: 95% dos dados provêm de genomas europeus, o que limita a utilização da IA na análise de genomas de pessoas não europeias e na detecção de doenças.

Mas as perspectivas estão a melhorar. Já há programas em curso em universidades africanas e empresas privadas que recolhem dados sobre cuidados de saúde em África.

A organização StopTB, por exemplo, também está a envolver mais equipas de investigação africanas na construção de novos sistemas de IA para dar resposta a preocupações de saúde específicas da região. Igualmente em curso encontra-se o projecto Três Milhões de Genomas Africanos (3MAG), cujo objectivo é sequenciar os genomas de três milhões de pessoas em África. Este projecto já identificou variações genéticas em grupos etnolinguísticos em África que eram anteriormente desconhecidas.

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