Extrema-direita sobe na Europa

Cerca de 373 milhões de eleitores dos 27 Estados-Membros da União Europeia (EU) – que, pela primeira vez, incluem alguns jovens de 16 e 17 anos trata-se do maior exercício democrático multi-estatal do mundo – votaram nos últimos dias – ontem domingo, dia 9, foi o dia principal – para eleger os 720 deputados do Parlamento Europeu.
À medida que a contagem progredia começava a tornar-se claro quem eram os vencedores e os vencidos nos 27 Estados-Membros da UE.
Em Itália, a líder Giorgia Meloni consolidou o seu papel de líder em Bruxelas, com cerca de 26-30% dos votos, enquanto em França, o Presidente Emmanuel Macron teve um desempenho tão mau que foi forçado a convocar eleições antecipadas, que terão lugar no próximo dia 30. Este foi, sem dúvida, o grande impacto deste escrutínio.
Os partidos Verdes e Liberais Renovadores perderam, cada um, cerca de 20 eurodeputados, o que poderá pôr em risco a maioria pró-europeia necessária para apoiar os altos funcionários e as leis da UE.
Os Verdes ficaram com 53 deputados, uma descida grande quando comparado com os 72 que possuíam.
O Renovar a Europa, partido liderado por Macron, caiu de 102 para 82 lugares, o que levou o Presidente a tomar a surpreendente medida de dissolver a Assembleia Nacional francesa e a convocar eleições antecipadas.
Portugal, uma excepção à subida da extrema-direita
Este colapso é acompanhado por um apoio crescente aos partidos extremistas, mesmo que alguns deles ainda não tenham sido atribuídos a grupos políticos.
Em França, o partido de extrema-direita, a União Nacional (RN) obteve 31,5% dos votos – mais do dobro do número obtido por Macron, que se apressou a publicar a seguinte mensagem no X (ex-Twitter): “A França precisa de uma maioria clara para funcionar em calma e concórdia. Compreendi a vossa mensagem, as vossas preocupações, e não as deixarei sem resposta.”
O FPÖ, de extrema-direita, na Áustria, duplicou o seu número de eurodeputados para seis, depois de ter obtido 27% dos votos, de acordo com uma sondagem da estação pública ORF. O segundo lugar é disputado entre o ÖVP, de centro-direita, com cinco deputados (contra sete) e 23,5%, e os socialistas do SPÖ, também com cinco deputados e 23% dos votos.
Na Alemanha, o partido democrata-cristão CDU e CSU obtiveram cerca de 30% dos votos, à semelhança dos 29% de 2019, seguido da extrema-direita Alternativa para a Alemanha, em segundo lugar, com 16,5%, contra 11% em 2019. Seguem-se os sociais-democratas do chanceler Olaf Scholz, com 14%, e os Verdes, com 12%. A taxa de participação é de 64%.
A tendência para uma viragem à direita foi confirmada em Espanha, onde o Vox aumentou a sua representação em dois deputados (passou a ter seis), enquanto o recém-chegado SALF (acabou-se a festa) também identificado como populista de extrema-direita, ganhou os seus primeiros três deputados.
Nos Países Baixos, onde o escrutínio teve lugar na quinta-feira, o PVV de Geert Wilders conquistou sete lugares, o que permitirá à aliança Verdes-Esquerda-Trabalhadores conquistar oito lugares no Parlamento Europeu, obter a vitória.
Portugal foi uma excepção em relação à subida da extrema direita. O partido Chega, liderado por André Ventura, desta família política, embora tenha eleito dois deputados europeus, perdeu metade do eleitorado em relação às legislativas de 10 de Março último. O Partido Socialista (PS) foi o mais votado, elegendo oito deputados, seguido da Aliança Democrática (AD) com sete, e os liberais da IL com dois deputados.
Controvérsias
Estes resultados não foram alheios aos cinco anos turbulentos, dominados pela pandemia de Covid-19 e pela invasão em grande escala da Ucrânia, para não falar do aumento do custo de vida, que passou a dominar as preocupações dos eleitores.
O enfraquecimento do establishment pró-europeu, com os eleitores a virarem-se contra partidos como o do Presidente francês Emmanuel Macron e o Partido Verde alemão, que actualmente faz parte do governo de coligação de Olaf Scholz.
A campanha teve as suas controvérsias. O eurodeputado Maximilian Krah demitiu-se do seu papel de líder da Alternativa para a Alemanha, de extrema-direita, depois de uma gafe em que pareceu defender o grupo paramilitar nazi SS. A Hungria organizou o seu primeiro debate televisivo em 18 anos, em honra das eleições – e o recém-chegado Péter Magyar está a ameaçar o controlo do poder do primeiro-ministro Viktor Orbán, cada vez mais autoritário.
Tarefas a cumprir
Uma das primeiras tarefas dos eurodeputados será aprovar o candidato que irá liderar a Comissão Europeia, uma vez que a actual Presidente, Ursula von der Leyen, espera garantir um segundo mandato. Contudo, a dinâmica eleitoral pode tornar a sua eleição mais difícil, uma vez que as sondagens antecipadas sugerem um enfraquecimento da coligação que a apoiou por pouco em 2019 – quando obteve 383 votos, apenas mais sete do que precisava.
Nenhum partido tem a maioria no Parlamento Europeu e as votações são muitas vezes decididas questão a questão, sendo necessário encontrar uma coligação que reúna a maioria necessária.
Recorde-se que o hemiciclo de Estrasburgo foi sempre dominado por dois grandes grupos, o Partido Popular Europeu (PPE), de centro-direita, e os socialistas, de centro-esquerda.
Os dois perderam a sua maioria combinada nas eleições de 2019, desde então tiveram de formar alianças informais com partidos como os Verdes e os Liberais.
A cada país é atribuído um determinado número de deputados europeus em função da população, que varia entre 96 na Alemanha e apenas seis em Chipre, Malta e Luxemburgo.
Pela primeira vez desde o início das eleições directas, em 1979, a contagem não incluirá o Reino Unido, cujos 73 eurodeputados sairão após o Brexit, em Fevereiro de 2020.