Destacada a importância do turismo de memória para os dois países

O mentor do projecto “Rota Turística e Cultural de Escravos em Angola”, que visa atrair visitas de afroamericanos descendentes de Angola, destacou que o país tem tudo para capitalizar este momento importante nas relações entre Angola e Estados Unidos da América, reforçando a valorização do seu passado histórico, fortalecer a ligação com a sua diáspora, partindo do princípio de que a ligação entre os dois povos não data de há 30 anos mas sim de 404 anos, concretamente quatro séculos de história.

Afonso Vita, director do Instituto Nacional do Fo-mento do Turismo, reconheceu ser fundamental sublinhar que o Presidente da República, João Lourenço, convidou os membros da família Tucker em 2021, facto que fortaleceu a sua ligação com Angola e que deve ser capitalizado em termos de estratégia de marketing turístico. Para si, a importância do turismo de memória constitui o segmento turístico mais fácil de posicionar Angola como um destino turístico cimeiro, considerando as valências que o país dispõe nesta matéria.
“O encontro entre os presidentes João Lourenço e Joe Biden deve ser capitalizado em termos turísticos, visto que poderá influenciar e ajudar o sector a posicionar-se de forma rápida no mercado norte-americano, tendo os membros da família Tucker como embaixadores do turismo por excelência”, sustentou.

Sobre o passado comum, Afonso Vita apontou que existem referências que confirmam que os primeiros negros que chegaram em 1619 a Jamestown, em Virgínia, Estados Unidos da América, saíram de Angola.

“A primeira mulher escrava a pisar o solo norte-americano, em 1619, foi a Ângela, capturada entre os reinos do Kongo e do Ndongo cujo monumento que simboliza a sua chegada e dos demais encontra-se em Jamestown, Virgínia. A família Tucker é a outra prova inequívoca da presença histórica angolana nos Estados Unidos da América que lidera as visitas turísticas organizadas para Angola no âmbito do turismo de memória, cuja comitiva este ano foi de 70 integrantes”, revelou.

Quanto à divulgação de pesquisas sobre os momentos da relação histórica entre os dois países, o especialista nega que a questão seja a falta de fontes, assinalando que o problema residiu numa estratégia de silenciamento e destruição de evidências sobre as realizações e contribuições de africanos. Afonso Vita lamentou que actualmente sejam poucos os países africanos, a exemplo do Gana, Senegal, Benim e Tanzânia, que conseguiram levantar a voz sobre esta matéria e reconstituir e divulgar a história da escravatura, erguendo monumentos para homenagear as vítimas e ensinando nas escolas às novas gerações.

“Felizmente, hoje tornou-se um movimento mundial a diáspora africana procurar as suas origens, forçando as Nações Unidas a reconhecer esse direito e proclamar a Década dos Afrodescendentes de 2015 a 2024, através da resolução 68/237”, partilhou.

Apresentado ao público em Junho deste ano, o projecto “A Rota Turística e Cultural de Escravos em Angola” contempla inicialmente quatro localidades do país, nomeadamente Massangano, Ambriz, Soyo e Luanda, tendo sido concebido para resgatar, divulgar a história do tráfico transatlântico, bem como facilitar a aproximação entre Angola e a sua diáspora espelhada em todo o mundo, sobretudo no continente americano, com maior destaque para os Estados Unidos da América e o Brasil.

“A rota servirá de plataforma de ligação entre Angola e os afrodescendentes através do turismo de memória, incluindo um festival denominado Festival Internacional Bianual de Encontro e Reencontro da Africanidade em Angola ou simplesmente The Yalankuwu Festival, que se realizará de 20 a 30 de Agosto próximo, na cidade de Mbanza Kongo, Património Mundial da Humanidade”, explicou Afonso Vita.

Doutorado em Geografia Humana aplicada ao Turismo pela Universidade de Coimbra, em Portugal, Afonso Vita é um académico que dedica particular importância à identidade cultural e ao manancial histórico do país.

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