África Austral revive percurso da vitória contra o apartheid

Angola comemora hoje o Dia de Libertação da África Austral, uma efeméride que transcende as fronteiras nacionais e reafirma o papel determinante do país para a derrota do regime segregacionista do apartheid, a independência da Namíbia e a libertação de Nelson Mandela.

Institucionalizada pela Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC, na sigla inglesa), a data evoca a histórica Batalha do Cuito Cuanavale, considerada por numerosos historiadores e protagonistas como um ponto de viragem decisivo na história contemporânea africana.

O Jornal de Angola recorreu ao seu arquivo histórico, com destaque para depoimentos recolhidos, em 2025, durante a Conferência Internacional sobre o Papel dos Países da Linha da Frente, sendo actualizada com a análise do jurista e diplomata Sebastião Isata, uma das vozes autorizadas para falar sobre o significado estratégico da efeméride.

Vitória de dimensão continental

De acordo com intervenções recolhidas a partir dos arquivos deste Jornal, a vitória alcançada no Cuito Cuanavale resultou de um esforço colectivo que envolveu forças nacionais, aliados internacionais e movimentos de libertação.
O general de exército António dos Santos França “Ndalu” sublinhou que o desfecho da Batalha não foi um acaso, mas o resultado de factores estratégicos, militares e humanos, destacando o papel decisivo das FAPLA no terreno das operações.

A resistência angolana, apoiada por forças cubanas e assessoria da então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), permitiu conter e derrotar o exército sul-africano, alterando o equilíbrio de forças na região.
Na mesma linha de pensamento, o antigo Presidente moçambicano Joaquim Chissano considerou a epopeia da libertação da África Austral um dos marcos mais relevantes da história do continente, sublinhando que a acção coordenada dos países da Linha da Frente foi determinante para o derrube do apartheid e a independência da Namíbia.

Cuíto Cuanavale e diplomacia no centro da viragem histórica

A leitura mais recente sobre o 23 de Março de 1988 destaca que a dimensão militar da Batalha do Cuito Cuanavale deve ser analisada em articulação com o plano diplomático.

Segundo o jurista e diplomata Sebastião Isata, o confronto, ocorrido entre 1987 e 1988, teve repercussões que ultrapassaram o campo de batalha, influenciando decisivamente o xadrez político regional.
A ofensiva na Batalha do Cuito Cuanavale gerou preocupações internacionais, tendo a então Primeira-Ministra britânica Margaret Thatcher manifestado receio de um “banho de sangue” na África do Sul, o que intensificou a pressão diplomática sobre o regime do apartheid liderado por P. W. Botha.

Neste contexto, Angola, sob liderança de José Eduardo dos Santos, procurou articular uma solução política envolvendo as grandes potências, incluindo os Estados Unidos do Presidente Ronald Reagan. O objectivo passava por acelerar a independência da Namíbia, pôr fim ao apartheid e criar condições para a democratização da África do Sul.
Este esforço desenvolveu-se numa conjuntura marcada pela Guerra Fria e por fortes dependências económicas regionais, que limitavam a acção política de países como a Zâmbia e o Botswana face ao poder sul-africano.
O culminar desse processo ocorreu com os Acordos de Nova Iorque, assinados em 22 de Dezembro de 1988, que estabeleceram as bases para a retirada das tropas estrangeiras de Angola, e abriram caminho para a Independência da Namíbia, considerada um passo decisivo para a libertação total da região.

Solidariedade internacional e forte consciência histórica

As celebrações do 23 de Março evocam, igualmente, a dimensão internacionalista da Batalha do Cuito Cuanavale. O general Leopoldo Cintra Frías recordou, em intervenções anteriores, o papel de Cuba no apoio aos movimentos de libertação africanos, destacando o contributo militar e político que ajudou a alterar o curso do conflito.
Por sua vez, o diplomata russo Vladimir Tararov defendeu a necessidade de preservar a memória histórica, alertando para o risco de distanciamento das novas gerações em relação a estes acontecimentos.

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