A Geração Tombamento e o empoderamento negro

A geração tombamento é um movimento estético urbano de referência no Brasil, que surge como impulsionador das vestes e da cultura negra para os holofotes, aproveitando o grande alcance proporcionado pela Internet. A palavra Tombar, apesar da sua existência no léxico da língua portuguesa, entende-se, aqui, como uma gíria.

No entendimento dos associados deste movimento, a palavra Tombar significa arrasar e chamar a atenção. A expressão, que tem tanto a ver com estilo, quanto com atitude, deu origem ao termo Geração Tombamento, usado para designar um grupo que traz visibilidade para a cultura afro-brasileira através da estética. Cansados da não representação na mídia, essa nova geração passou a subverter o padrão europeu de beleza, trazendo protagonismo para a juventude negra dentro do universo da moda, socorrendo-se das plataformas digitais, para a sua divulgação e afirmação na sociedade brasileira e não só.

Com muita influência dos anos 90 e do vestuário desportivo, o estilo “tombamento” logo chamou a atenção, e mesmo quem ainda não conhecia o termo já deve estar familiarizado com alguns dos seus ícones: Karol Conká, Rico Dalasam e Magá Moura são representantes do movimento, que vai muito além do vestuário.

Utensílios como batons, cabelos coloridos, misturas criativas de cores e estampas, muitos acessórios e peças garimpadas com maestria em brechós são elementos de estilo marcantes no movimento “tombamento”, e estão fortemente ligados à busca pelo empoderamento.

A Geração Tombamento quer se fazer ouvir, e investe forte na conquista de novos espaços, dentro e fora da militância, trazendo visibilidade para vozes marginalizadas. Nas festas, nos colectivos e na internet, eles abordam questões de raça, género e sexualidade, trazendo à tona discussões que antes ficavam em baixo do tapete.

Difusão do Tombamento

A Geração Tombamento não é a única que propaga o fortalecimento, reconhecimento e empoderamento estético da cultura negra. Vários outros países também possuem os seus representantes tombadores, ampliando os diálogos necessários sobre respeito e representatividade.

É o caso dos Estados Unidos, onde destacamos o movimento Afropunk, que surgiu em meados dos anos 90 devido à dificuldade de James Spooner, curtir o seu estilo de música favorito, por causa do racismo evidenciado que havia no cenário do Punk.

Em 2003, James Spooner, lançou um documentário com o mesmo nome, falando sobre as suas dificuldades da infância e como a criação do movimento no Brooklyn ajudou-o a unir-se com outros músicos e fãs de punk, que passaram a se encontrar para falar abertamente sobre as suas raízes e sua identidade negra.

O documentário, que está disponível no Youtube, trouxe o empoderamento necessário para que jovens excluídos do mundo todo percebessem que não estavam sozinhos. A partir daí, não demorou muito para que eles colocassem a mão na massa: o site Afropunk, imediatamente foi ao ar, com actualizações diárias sobre identidade, música e moda.

Isto é, ampliaram o alcance do movimento dando origem ao Festival Afropunk. Desde 2005, ele tem sido responsável por reunir um conjunto de figuras de peso, com nomes como Janelle Monáe, Tyler the Creator e Erykah Badu. Este festival, ficou conhecido como o epicentro da cultura, observação de tendências e expressão de moda.

Fashion rebels

Movimento no Brasil

A brasileira Karol Conká, cantora considerada uma das principais representantes do estilo rap feminino brasileiro dos últimos tempos, que, inclusive, foi indicada como “Aposta” no VMB 2011, é uma das representantes da Geração Tombamento no Brasil que tem na Festa Batekoo, no Rio de Janeiro o seu principal ponto de encontro.

Dentro ou fora do Brasil, vale a pena ficar de olho no movimento, que veio com tudo e está a revolucionar o modo como enxergamos o mundo da moda. Cheios de atitude e inovação estética, esses jovens prometem fazer política através das roupas, tornando-se protagonistas da sua própria história e fazendo da moda a vitrina de expressão individual.

Na África do Sul, existe o Fashion Rebels, um colectivo de street style, moda e expressividade, que surgiu em 2012 na cidade de Pretória, a capital política e administrativa do país. Idealizado por Maitee Wave, Thifhelimbilu Mudau e Sizophila Dlezi, o movimento tem como finalidade exaltar a identidade e a individualidade através de roupas extravagantes, subversivas e cheias de personalidade.

A estética que os representa é uma mistura de épocas, cores e estampas, muita inovação e a quebra dos padrões de género. Eles ressignificam as roupas, ignorando definições sociais sobre o feminino e o masculino, além de adquirirem todas as suas peças em trocas, brechós, doações ou feiras livres.

Os Fashion Rebels propõem-se num estilo de vida mais livre do capitalismo e do consumo. Uma das grandes contribuições dos Fashion Rebels foi a criação do Social Market, uma feira que busca elevar a cidade de Pretória ao posto de referência nacional (e agora, também, internacional) nos campos da arte, da música, da moda e também da culinária.

*Texto de autoria de Francieli Hess – Formada em Design de Moda pela UDESC. Estudou Cultura e Progettazione della Moda em Florença. Trabalha como Coordenadora de Estilo em Florianópolis e é apaixonada por criação, história, branding e comunicação.

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