Catástrofes climáticas causam 1,3 mil milhões de USD em danos na Educação na África Austral e Oriental, revela UNICEF
Os desastres relacionados com o clima já custaram aos sistemas educativos da África Austral e Oriental cerca de 1,3 mil milhões de dólares em perdas e danos directos em escolas e infra-estruturas de ensino, e interromperam a aprendizagem de 130 milhões de crianças, segundo um novo relatório da UNICEF e da Dalberg, Protecting Children’s Learning Futures: Quantifying Climate-Related Loss and Damage in Eastern and Southern Africa.
A análise estima que estas interrupções resultaram em até 140 mil milhões de dólares em perdas de rendimentos futuros, valor que poderá atingir 380 mil milhões de dólares até 2050, à medida que os impactos climáticos se intensificam e afectam até 520 milhões de estudantes.
“São as crianças que estão a pagar o preço mais elevado por uma crise que não criaram”, afirmou Etleva Kadilli, directora regional da UNICEF para a África Oriental e Austral. “Pela primeira vez, este relatório mostra a dimensão das perdas e danos relacionados com o clima na educação. No entanto, o impacto nas crianças continua largamente invisível nas decisões de financiamento. Isto tem de mudar.”
O documento inclui análises detalhadas da Etiópia, Quénia, Moçambique, Somália e Zâmbia, demonstrando como eventos meteorológicos extremos, cada vez mais frequentes e intensos — incluindo cheias, secas, ciclones e ondas de calor — estão a destruir infra-estruturas escolares, a forçar as crianças a abandonar as salas de aula e a afectar de forma desproporcionada as raparigas, as crianças com deficiência e as comunidades marginalizadas.
A experiência da Zâmbia ilustra a dimensão e o custo humano. Entre 2005 e 2024, cheias e secas interromperam a aprendizagem de 5 milhões de estudantes e causaram perdas imediatas de 60 milhões de dólares em infra-estruturas educativas, ao mesmo tempo que reduziram os rendimentos futuros em até 5 mil milhões de dólares.
A seca severa associada ao El Niño em 2023-24 na África Austral, uma das piores das últimas décadas, deixou quase 10 milhões de pessoas sem alimentos, água ou energia, obrigando as escolas a reduzir horários, encerrar temporariamente ou enviar os alunos mais cedo para casa. As crianças das zonas rurais e as raparigas foram desproporcionalmente afectadas, muitas abandonando a escola para apoiar os meios de subsistência familiares ou enfrentando um risco acrescido de casamentos precoces.
Crianças vítimas de situação que não criaram
Apesar destes impactos, a educação recebe menos de 1,5% do financiamento climático global, deixando os sistemas educativos expostos a ciclos repetidos de perdas e recuperação. A análise da UNICEF e da Dalberg mostra que reforçar a resiliência das escolas face aos choques climáticos não só protege a educação, como também gera elevados retornos económicos, com cada dólar investido a produzir até 13 dólares em benefícios, através da redução de danos e
interrupções, da salvaguarda da continuidade da aprendizagem e da preservação do desenvolvimento e produtividade a longo prazo das crianças.
“Sem uma maior priorização no financiamento climático, a educação continuará a suportar o peso dos impactos climáticos, gerando interrupções recorrentes”, acrescentou Kadilli. “Temos de conceber sistemas educativos que antecipem choques, protejam a aprendizagem inicial e fundamental e mantenham as escolas abertas. Caso contrário, o verdadeiro custo das perdas e danos climáticos será medido no potencial humano perdido.”
À medida que o Conselho do Fundo de Resposta a Perdas e Danos (FRLD) se reúne em Livingstone ainda esta semana, reconhecer as crianças não apenas como as mais afectadas, mas como titulares de direitos com necessidades, capacidades e vozes que devem moldar a recuperação e a resiliência, é essencial. Para proteger o futuro das crianças e promover o desenvolvimento a longo prazo de África, a UNICEF apela aos governos, doadores e fundos climáticos para que:
– Reforcem a integração da educação nos quadros nacionais de acção climática, referindo explicitamente a educação nos Planos Nacionais de Adaptação (NAP) e nas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC), de modo a facilitar o acesso ao financiamento climático e para perdas e danos.
– Apliquem uma abordagem baseada no risco climático ao financiamento interno da educação, assegurando que as dotações orçamentais para a educação são informadas pelo clima, priorizando as fases críticas e fundamentais da aprendizagem das crianças e a continuidade do ensino face a choques climáticos.
– Aumentem e direccionem o financiamento climático internacional para a educação, garantindo que os principais fundos climáticos, incluindo o Fundo Verde para o Clima, o Fundo de Adaptação e o Fundo de Resposta a Perdas e Danos, alocam recursos específicos à educação, com o FRLD a apoiar particularmente perdas inevitáveis quando os impactos climáticos ultrapassam a capacidade de adaptação dos sistemas educativos.
Texto adaptado da UNICEF