Angolana Maria Mambo Café é uma das mulheres retratadas no mais recente livro da historiadora britânica Paula Bartley
“Se olharmos para o curso da história, vemos que, até à década de 1950, eram sobretudo as nações europeias de etnia branca que elegiam mulheres. Porquê? Porque a maioria dos outros países era governada por governos coloniais”, relata à agência Lusa, o historiadora britânica Paula Bartley, autora do obra “Trailblazers: The First Women Elected to Government” [Pioneiras: As primeiras mulheres a serem eleitas para o Governo], publicado recentemente no Reino Unido.
No livro estão retratadas mulheres de 41 países, sendo que duas são da África lusófona: a angolana Maria Mambo Café e a moçambicana Graça Machel.
Só após a descolonização e independência é que países como Angola, Moçambique ou África do Sul puderam eleger os seus parlamentos e formar governos. O convite a mulheres como Maria Mambo Café, Graça Machel e a sul-africana Winnie Mandela para integrarem os primeiros executivos foi a “recompensa” pelo envolvimento nos movimentos de luta pela independência.
“Portanto, é a descolonização que faz com que haja toda uma série de países africanos diferentes – mencionei apenas alguns no meu livro que obtiveram a independência – [onde] temos mulheres a entrar no Parlamento pela primeira vez”, acrescenta.
Maria Mambo Café, nascida em Cabinda, em 1954. Fez a sua formação académica em economia na então União Soviética. Café fez parte do movimento de independência angolano, trabalhando inicialmente na República Democrática do Congo, antes de retornar a Angola em 1974. Participou das negociações do Acordo do Alvor, assinado em 15 de janeiro de 1975, que levou à independência de Angola.
Em 1977, foi nomeada vice-ministra do Comércio Interno, cargo que ocupou até 1978. Em 1982, tomou conta da pasta dos Assuntos Sociais, tornando-se a primeira mulher em Angola a ocupar um cargo ministerial. Em 1986, deixou o Ministério para assumir o cargo de Vice-Primeira-Ministra e Ministra de Estado da Área Económica e Social, que ocupou até 1988. De 1986 a 1987, foi considerada uma das “super-ministras”. Após uma remodelação ministerial, Café tornou-se secretária para assuntos da juventude. Em 1992, foi eleita para a Assembleia Popular.
Café teve também o seu lado controverso, havendo quem a acusasse que enriquecimento fácil, tendo sido considerada uma das 100 pessoas mais ricas de Angola, com um património superior a 100 milhões de dólares. Acabou por falecer a 1 de dezembro de 2013 em Lisboa, Portugal. Contava 68 anos.
O gabinete político de Angola homenageou-a numa declaração que dizia: “A camarada Mambo Café ‘Tchyina’ tem uma trajectória política impecável e invejável na luta pela liberdade e democracia em Angola e no mundo.” Em Cabinda, o governo angolano homenageou-a atribuindo o seu nome ao aeroporto local.
Graça Machel e Winnie Mandela outras duas africanas retratadas
Em relação a Graça Machel, que foi ministra da Educação de Moçambique e continua a ser activista pelos direitos das crianças e das mulheres, Bartley afirma que é uma das suas “heroínas”. “Acho que é uma mulher absolutamente maravilhosa. E continua a lutar por questões internacionais, pela justiça, especialmente em prol das crianças que foram envolvidas em grupos de mercenários. É fantástica.”
A “historiadora feminista” escreveu o livro focado no século XX e admite que teve de selecionar os países incluídos na obra por uma questão de espaço.
Além da Finlândia, Rússia, Estados Unidos ou Canadá, também incluiu Afeganistão, Bahamas, Zâmbia, Iraque ou Tuvalu. Do Reino Unido, destacou Constance Markievicz, a primeira mulher a ser eleita para o parlamento britânico, apesar de ter estado presa por traição, porque lutou pela independência da Irlanda. “Sempre achei isto incrivelmente surpreendente, tendo em conta o movimento sufragista que antecedeu a Primeira Guerra Mundial”, refere, lembrando que nenhuma das ativistas foi eleita imediatamente.
Outra das suas figuras favoritas é a húngara Margit Slachta, uma freira católica feminista e a primeira a ser eleita para o parlamento do país. “Ela tentou introduzir políticas feministas, mas eles não gostaram e mandaram-na embora. Ela voltou a ser freira e salvou milhares de judeus húngaros, ao emitir certidões de baptismo falsas e providenciar um refúgio seguro no seu convento”, conta.
Nas curtas biografias, explica, tentou juntar o pessoal ao político, procurando tornar o livro “mais acessível, para atrair as mulheres jovens para a política.”
A historiadora espera inspirar mais pessoas a fazer carreira política, mas confessa que a perspectiva não a atrai devido às pressões e riscos que correm, incluindo de morte. “Só espero que as pessoas não me deem ouvidos neste momento, mas que, na verdade, leiam o livro e pensem: ‘Estas mulheres surpreendentes, arriscaram as suas vidas, a ser torturadas, a ser presas, ao exílio, e isso aconteceu porque acreditavam na democracia’”, conclui.