Angola já não é o Estado petrolífero esquecido de África — Está a tornar-se um centro de oportunidades que merece a sua atenção

Uma análise às reformas económicas estratégicas de Angola e ao seu crescente papel como elo de ligação regional

Pergunte à maioria das pessoas no Reino Unido o que lhes vem à cabeça quando ouvem a palavra “Angola” e é provável que obtenha respostas feitas, marcadas por ecos da guerra, plataformas petrolíferas e manchetes de crise de há várias décadas. Essa imagem está desactualizada e presta um mau serviço não apenas a Angola, mas também a quem procura compreender a verdadeira dimensão das oportunidades em África nos dias de hoje.

Nos últimos sete ou oito anos, Angola registou progressos reais. Um país que era visto sobretudo como um enclave de recursos naturais deu passos significativos para afirmar a sua autonomia, diversificar a economia, abrir-se a parceiros globais e posicionar-se como um elo de ligação regional, em vez de um Estado petrolífero dependente de uma única matéria-prima ou de um único conjunto de parceiros comerciais.

Para os decisores políticos e empresários britânicos que olham para o futuro de África, Angola deve agora estar no radar.

Quando o Presidente João Lourenço tomou posse, em 2017, Angola era justamente criticada pela falta de transparência na governação e pela persistente dependência das receitas do petróleo. Essa dependência fazia-se sentir tanto em Luanda como nos mercados globais, onde as exportações petrolíferas angolanas tinham importância para o equilíbrio energético europeu.

Angola continua a produzir petróleo — permanece entre os maiores produtores de África —, mas a estratégia nacional mudou de forma subtil, embora significativa. O Governo tem promovido reformas económicas estruturais que alteraram as expectativas quanto ao papel de Angola na região e no mundo. As reformas do enquadramento jurídico do investimento estrangeiro, da transparência fiscal e das empresas públicas visaram reduzir a volatilidade e aumentar a previsibilidade para os investidores. Em termos simples, Angola procura transmitir a mensagem de que as empresas podem confiar nos seus contratos e nas suas instituições.

Esta mensagem teve particular relevância, tendo em conta que, historicamente, os investidores enfrentavam dificuldades para movimentar de forma fiável os fluxos financeiros para fora de Angola. As relações de banca correspondente eram limitadas e muitas empresas receavam a dificuldade em fazer negócios no país. Através de melhorias na governação e de reformas macroeconómicas, Angola reforçou os laços com bancos internacionais e restabeleceu o acesso aos sistemas internacionais de pagamentos, como o SWIFT. Isto facilitou o investimento transfronteiriço e transmitiu um sinal de que Angola passou a actuar segundo regras reconhecidas pelos mercados globais.

Seria enganador, e pouco sensato, sugerir que a história de Angola é uma narrativa de transformação instantânea. Persistem desafios reais: a criação de emprego, a desigualdade e o desenvolvimento humano continuam a ser prioridades urgentes. Mas o rumo é claro. Um país

com cerca de 35 milhões de habitantes está a dar passos deliberados para diversificar a sua base económica e atrair uma ampla gama de parceiros internacionais.

É aqui que a mudança de narrativa se torna particularmente interessante, sobretudo do ponto de vista britânico. A orientação diplomática de Angola tornou-se mais abrangente. Historicamente, a China foi um parceiro dominante na reconstrução e no desenvolvimento de infra-estruturas angolanas, numa relação assente em acordos energéticos e empréstimos. Pequim continua a ser um parceiro importante e a liderança angolana deixou claro que pretende manter relações construtivas. Em vez de escolher um parceiro em detrimento de outro, o país procurou construir resiliência através da diversificação.

Ao mesmo tempo, Angola alargou o seu círculo de parceiros. Os países da União Europeia, os Estados do Golfo e os Estados Unidos fazem parte da sua estratégia de aproximação diplomática e comercial. E o Reino Unido tem vindo, cada vez mais, a integrar essas conversações. Missões comerciais, delegações financeiras e contactos governamentais têm demonstrado um interesse mútuo em aprofundar a cooperação económica, sobretudo nas áreas das infra-estruturas, agricultura e serviços.

Um exemplo concreto da evolução da visão económica de Angola é o Corredor do Lobito. Talvez o mais marcante projecto de infra-estruturas da África Austral dos últimos anos, esta ligação de transportes, centrada no porto do Lobito e na sua linha férrea que se estende para o interior até às regiões ricas em minerais da República Democrática do Congo e da Zâmbia, tem potencial para transformar a forma como as mercadorias circulam dentro e através do continente.

Para as empresas britânicas dos sectores da logística, serviços mineiros, engenharia e serviços financeiros, projectos como este abrem portas a mercados que anteriormente eram de difícil acesso.

Do ponto de vista geográfico, Angola ocupa uma posição privilegiada nas rotas comerciais do Atlântico, funcionando como uma porta de entrada natural entre a Europa e o interior de África. Ao investir na conectividade, Angola aposta não apenas nas exportações de recursos naturais, mas também em integrar-se nas cadeias de valor, facilitando o comércio para outros países e para si própria.

Actualmente, várias empresas britânicas participam no reforço dos sectores da energia e das infra-estruturas em Angola. A Azule Energy, participada pela BP, lidera a produção petrolífera, enquanto a Afentra continua a expandir a sua carteira de activos. A UK Export Finance (UKEF) e o Standard Chartered apoiam grandes projectos de infra-estruturas, incluindo um desenvolvimento costeiro avaliado em 415 milhões de euros, enquanto a Câmara de Comércio Reino Unido–Angola tem facilitado delegações comerciais de alto nível.

Talvez a mudança mais importante tenha ocorrido na percepção. Com demasiada frequência, África continua a ser retratada através de narrativas de crise. Nesse sentido, os progressos de Angola são exemplares: não são perfeitos nem completos, mas desafiam o estereótipo de um país preso aos seus recursos naturais ou dependências geopolíticas.

Para os leitores e investidores britânicos, isso faz de Angola uma oportunidade concreta. Vivemos numa era global em que cadeias de abastecimento diversificadas, mercados

emergentes e parceiros regionais são tão importantes como as alianças tradicionais. As reformas económicas, diplomáticas e institucionais de Angola sugerem que o país pretende ser mais do que um simples destino para rendas extractivas. Quer afirmar-se como parceiro no comércio, na tecnologia e no crescimento das infra-estruturas.

Continua a ser verdade que qualquer mercado emergente envolve riscos. Mas a antiga caricatura de Angola como um enclave petrolífero está a dar lugar a algo mais dinâmico: uma nação que procura equilibrar reformas internas com uma maior integração internacional e fazê-lo com um grau de autonomia que merece atenção.

Se os meios empresariais e políticos britânicos levarem a sério o envolvimento com África em moldes que vão além da ajuda ao desenvolvimento ou das manchetes ocasionais, Angola deverá fazer parte dessa conversa. Porque a história que está a emergir — de recalibração estratégica, abertura económica e alargamento diplomático — merece ser compreendida, não como uma excepção, mas como parte do próximo capítulo de África. E essa é uma narrativa que vale a pena acompanhar.

Sobre o autor: Richard Dickenson é empresário no sector das energias verdes. Liderou projectos de desenvolvimento na África Oriental, na China e em vários países do Médio Oriente. É movido pela paixão pela inovação e pelo progresso tecnológico.

Por Richard Dickenson

*Artigo publicado originalmente “International Business Times’ do Reino Unido.

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