Angola, Hollywood e o novo momento cinematográfico do mundo lusófono*

Aprendemos desde cedo que os filmes não são apenas entretenimento. São histórias contadas para mudar percepções. Um país que surge num ecrã de Hollywood deixa de ser uma abstração geográfica para milhões de espectadores e passa a ser um lugar real: visitável, desejável, imaginável.

Portugal compreende isto melhor do que a maioria dos países. Desde o papel de Lisboa como centro europeu de produção audiovisual até ao crescente interesse internacional pela cultura de língua portuguesa, a visibilidade no ecrã tornou-se parte da forma como os países competem por turismo, investimento e influência. Para o conjunto do mundo lusófono, isto é ainda mais importante. Angola não é uma história distante para Portugal. É um país ligado a Portugal pela língua, pela história, pela migração, pelos negócios, pela cultura e por redes familiares que continuam a moldar ambas as sociedades.

É por isso que a visita de Will Smith a Angola, em Março de 2026, merece ser analisada com muito mais seriedade do que aquela que normalmente é atribuída às notícias sobre celebridades. Smith deslocou-se a Luanda como parte de uma delegação da E1 League, o campeonato mundial de corridas de lanchas eléctricas, e foi recebido pelo Presidente João Lourenço no Palácio Presidencial. No encontro, discutiram oportunidades de cooperação no sector audiovisual e de promoção do turismo nacional.

A imagem possui uma força simbólica que qualquer pessoa compreende de imediato: um dos actores mais famosos do planeta, sentado frente a frente com o Presidente de Angola, numa reunião tratada com a solenidade de um encontro ao mais alto nível do Estado.

Smith foi mais longe. Disse aos jornalistas que esperava filmar cenas de acção em Angola para um futuro capítulo da franquia Bad Boys e chegou mesmo a sugerir, com a informalidade de um verdadeiro homem do espectáculo, que o Presidente João Lourenço participasse numa cena de corrida de automóveis.

Quer essa cena venha ou não a chegar aos ecrãs é quase secundário. O que realmente importa é a mensagem transmitida pela proposta: Angola é um país onde uma estrela de Hollywood se sente suficientemente segura, entusiasmada e inspirada para imaginar um grande sucesso de bilheteira.

Para Portugal, isto deve ser visto como muito mais do que uma curiosidade. Aponta para uma oportunidade mais ampla de o mundo lusófono se posicionar na economia global do audiovisual. Angola dispõe de paisagens, música, dinamismo urbano, cenários costeiros e uma riqueza cultural que continuam pouco explorados pelo cinema internacional. Portugal possui experiência em produção, acesso ao mercado europeu, talento técnico e uma reputação crescente como destino de filmagens. Entre Lisboa e Luanda existe a possibilidade de criar um corredor audiovisual lusófono mais ambicioso.

Não se trata apenas de cinema. Trata-se de turismo, comércio, soft power e reputação nacional. A Nova Zelândia aprendeu essa lição com O Senhor dos Anéis. A Croácia aprendeu-a

com A Guerra dos Tronos. A Colômbia aprendeu-a com Narcos, para o melhor e para o pior. África também começou a escrever essa história nos seus próprios termos: a Nollywood é uma das maiores indústrias cinematográficas do mundo em volume de produção, enquanto países como o Quénia e o Ruanda têm trabalhado activamente para atrair produções internacionais.

Angola tem agora a oportunidade de entrar nessa conversa com uma identidade distintamente lusófona. Isso é importante porque a imagem global de Angola tem sido demasiadas vezes moldada por representações de guerra, pobreza e instabilidade. Estas narrativas são difíceis de inverter apenas com discursos ou documentos de política pública. Mudam-se através de imagens: Will Smith a sorrir em Luanda, a falar com entusiasmo sobre a cultura angolana e a imaginar sequências de acção nas ruas da capital.

O contexto mais amplo reforça este argumento. Luanda prepara-se para receber uma etapa do Campeonato Mundial E1, um evento associado a nomes internacionais como LeBron James, Tom Brady e Rafael Nadal. Angola é apenas o segundo país africano a integrar este circuito, colocando Luanda entre um número crescente de cidades africanas que competem pela atenção dos meios de comunicação internacionais.

Tudo isto deveria ser de especial interesse para Portugal. A relação entre Portugal e Angola é frequentemente discutida sob a perspectiva da história, da diplomacia, da energia, da banca, da migração ou dos negócios. No entanto, a cultura poderá tornar-se uma das mais importantes pontes entre os dois países. Um perfil mais forte de Angola no cinema e no turismo não enfraquecerá o papel de Portugal; poderá, pelo contrário, fortalecer todo o espaço cultural de língua portuguesa.

Existe também um argumento de natureza prática. Produtoras portuguesas, operadores turísticos, investidores, plataformas de streaming e profissionais das indústrias criativas deveriam acompanhar atentamente esta evolução. A afirmação de Angola como possível destino de filmagens poderá criar oportunidades para co-produções, parcerias técnicas, prestação de serviços de apoio às filmagens, programas de formação e narrativas destinadas a múltiplos mercados. Uma produção internacional bem-sucedida em Luanda não promoveria apenas Angola. Contribuiria igualmente para reforçar a visibilidade do cinema em língua portuguesa e da cooperação audiovisual no espaço lusófono.

É aqui que a visita de Will Smith ganha verdadeiro significado. Não é apenas a história de uma celebridade em Luanda. É o sinal de que Angola está a tornar-se visível e compreensível para a indústria global do entretenimento de uma forma inteiramente nova. Para um país que durante muito tempo foi visto através da lente do conflito, isso não é de somenos importância.

Será Angola a dizer ao mundo, através da linguagem mais poderosa que existe, que este é um país onde vale a pena estar. E, para Portugal, deve também servir de lembrança de que o mundo lusófono não é apenas um passado partilhado. Pode igualmente ser um futuro cultural e económico comum.¨

Por: Taiwo Meghoma

*Artigo publicado originalmente no “The Portugal News”

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