Afinal vírus Ébola já circulava há quatro meses na RDC antes de surto ser declarado

O vírus Ébola começou a circular no leste da República Democrática do Congo (RDC) em Fevereiro de 2025, cerca de quatro meses antes de a epidemia ser oficialmente declarada, a 15 de Maio, revelou a Organização Mundial de Saúde (OMS), ontem, segunda-feira, dia 10.

A informação foi avançada pelo Director Regional da OMS para África, Mohamed Yakub Janabi, durante uma conferência de imprensa realizada em Bunia, capital da província de Ituri, considerada o epicentro do actual surto.

Segundo o responsável, estudos genéticos conduzidos por Steve Mundeke Ahuka, coordenador da resposta à epidemia no Instituto Nacional de Saúde Pública da RDC, indicam que o vírus começou a circular em Fevereiro, embora o surto só tenha sido oficialmente reconhecido pelas autoridades em Maio. “Isto significa que a luta contra o Ébola está com quatro meses de atraso” e que o vírus está “à frente” da resposta, afirmou Janabi.

A situação é agravada por vários factores, entre os quais a velocidade de propagação da doença, considerada superior à registada noutras epidemias, a extensão do vírus ao vizinho Uganda, a inexistência de vacinas ou tratamentos oficialmente aprovados para esta estirpe e a insegurança que afecta o leste da RDC, devido ao conflito entre grupos rebeldes e o Exército.

A OMS alerta ainda para o elevado número de doentes que morrem fora das unidades sanitárias. Cerca de 70% das mortes estarão a ocorrer nas próprias comunidades, o que dificulta a identificação e o tratamento dos casos.

“Setenta por cento das pessoas estão a morrer nas suas comunidades, o que significa que não estamos a ver dois terços dos doentes”, afirmou Janabi, defendendo uma revisão da estratégia de resposta à epidemia. “Porque é que as pessoas não estão a ir aos hospitais? Porque é que a consciencialização sobre o Ébola não se disseminou como esperávamos?”, questionou o responsável.

Segundo maior surto na RDC

A actual epidemia já se tornou o segundo maior surto de Ébola da história da RDC em número de infecções, ultrapassando o surto registado no leste do país entre 2018 e 2020, que provocou 2.299 mortes em 3.481 casos.

Trata-se da 17.ª epidemia de Ébola registada na RDC e, segundo a OMS, apresenta a mais rápida taxa de crescimento de infecções entre todos os surtos registados no país desde a sua declaração.

Apesar da dimensão da epidemia, os números permanecem distantes dos registados no pior surto de Ébola da história, ocorrido na África Ocidental entre 2014 e 2016, que provocou cerca de 11 mil mortes e 28 mil infecções.

Uganda declarou fim da epidemia e Angola não regista casos

O Uganda, país vizinho da RDC, também registou a propagação do vírus, mas declarou-se “livre de Ébola” a 28 de Julho, depois de contabilizar 20 casos confirmados, dos quais 15 foram

considerados importados da RDC. No total, registaram-se duas mortes. Em Angola, país vizinho da RDC, não foi detectado qualquer caso de ébola durante o actual surto.

A presente epidemia na RDC é provocada pela estirpe Bundibugyo, cuja taxa de mortalidade varia entre 30% e 50%. De acordo com a OMS, não existe actualmente uma vacina autorizada nem um tratamento específico para esta variante.

O vírus Ébola transmite-se através do contacto directo com fluidos corporais de pessoas ou animais infectados e pode provocar febre hemorrágica grave, vómitos, diarreia e hemorragias internas.

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