ACNUR obrigada a dispensar pessoal por falta de fundos

A agência da Organização das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) terá de cortar mais postos de trabalho e implementar reformas urgentes, à medida que enfrenta uma redução do financiamento e da ajuda externa, noticiou a Reuters, ontem, terça-feira, dia 19.

O alto-comissário do ACNUR, Barham Salih, informou os Estados-membros de que a agência “não tem outra escolha”, uma vez que prevê que os fundos disponíveis em 2026 atinjam pouco mais de 3 mil milhões de dólares, cerca de 15% abaixo do valor de 2025. A agência já tinha anunciado milhares de cortes de postos de trabalho no ano passado.

O défice surge numa altura em que o número de pessoas deslocadas por guerras e perseguições em todo o mundo continua a aumentar. A agência trabalha com pessoas forçadas a abandonar as suas casas na Ucrânia, no Sudão e noutros países afectados por conflitos. “Está a tornar-se cada vez mais claro que a nossa situação financeira prevista para este ano exige que tomemos medidas urgentes”, escreveu Salih na carta datada de 15 de Maio.

Impacto grave sobre milhões de deslocados

O ACNUR, que depende sobretudo de doações voluntárias, sofreu uma queda de cerca de 30% no financiamento disponível em 2025 em comparação com 2024, refere a carta, depois de os Estados Unidos e outros doadores terem reduzido as suas contribuições, enquanto alguns redirecionaram fundos para a defesa.

Existem agora muito mais funcionários internacionais sob contrato do que vagas disponíveis, o que significa que há centenas de pessoas sem colocação, mas que continuam a receber salário. Há cerca de três mil funcionários internacionais para apenas 1800 postos, segundo o ACNUR.

“Infelizmente, teremos de rescindir os contratos dos funcionários que não tenham conseguido garantir uma colocação” até ao final de Setembro, afirmou Salih, acrescentando que “esta situação não é sustentável nem financeira nem operacionalmente (…) e representa um custo financeiro significativo para a organização, estimado em aproximadamente 185 milhões de dólares no período de 2026 a 2028.”

A agência afirmou, num comunicado, que o desequilíbrio no quadro de pessoal ocorreu após a redução de 33% dos postos internacionais no ano passado.

“Reconhecemos plenamente a ansiedade que esta situação cria e estamos a fazer tudo o que é possível para mitigar o seu impacto”, lê-se no documento. “Continuamos profundamente preocupados com o aumento do fosso entre as necessidades e os recursos, bem como com o impacto grave que isto terá sobre milhões de pessoas deslocadas pela guerra e pela perseguição”, destaca.

O alto-comissário do ACNUR apelou aos países doadores para fornecerem financiamento mais flexível, afirmando na carta que a crise foi agravada por uma crescente proporção de doações rigidamente condicionadas.

Esse tipo de financiamento aumentou de 24% das receitas em 2024 para 44% em 2025 e deverá ultrapassar os 50% em 2026, segundo Salih.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) também declarou que a sua força de trabalho irá diminuir em quase um quarto — ou mais de dois mil empregos — até meados deste ano, depois de o seu principal doador, os Estados Unidos, se ter retirado.

Desde então, o director-geral da organização, Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse que a situação financeira estabilizou, informando os membros na segunda-feira (18) de que 90% do orçamento para os próximos dois anos já tinha sido financiado.

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