Alterações climáticas podem deslocar mapa da malária em África
O aquecimento global poderá reduzir a transmissão da malária em vários países da África Ocidental, devido ao aumento das temperaturas, enquanto na África Oriental e Austral o efeito poderá ser inverso, com a doença a expandir-se para regiões actualmente menos afectadas, alerta um artigo publicado na revista científica ‘Nature’, citado pela ‘Jeune Afrique’.
O estudo, intitulado ‘Impacto passado e futuro das alterações climáticas sobre o paludismo infantil em África’, publicado no final de Julho de 2026, revela que a pesquisa foi efectuada por cinco investigadores de universidades como a Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, e as universidades de Yale, Chicago e Berkeley, nos Estados Unidos.
O mesmo baseia-se em dados clínicos recolhidos ao longo de um século, provenientes de mais de 50.425 inquéritos realizados entre 1900 e 2016. Os investigadores procuraram determinar se as alterações climáticas provocadas pela actividade humana contribuíram para o aumento da mortalidade infantil associada ao paludismo na África subsaariana.
“O clima não está apenas a agravar ou a melhorar o paludismo; está a deslocá-lo”, explica Tamma Carleton, co-autora do estudo, professora no Departamento de Economia Agrícola e de Recursos da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e responsável pela investigação do Climate Impact Lab.
O paludismo, também conhecido como malária, é uma doença parasitária potencialmente mortal, provocada por parasitas do género Plasmodium e transmitida ao ser humano através da picada de mosquitos fêmeas infectados do género Anopheles.
Temperatura de cerca de 25 graus favorece a transmissão
De acordo com o estudo, a transmissão do paludismo ocorre de forma mais favorável a temperaturas próximas dos 25 graus Celsius. Abaixo de aproximadamente 16 graus e acima dos 34 graus, a transmissão torna-se praticamente insignificante.
Desta forma, o aquecimento global deverá alterar progressivamente as zonas de risco no continente africano, reduzindo a incidência em algumas das actuais áreas mais afectadas, mas criando novas ameaças em regiões que até agora registavam menor transmissão.
“Vemos um alívio nos actuais focos de maior incidência e um novo risco praticamente em todo o lado”, afirma Carleton.
A investigação conclui que o aumento das temperaturas na África Oriental e Austral “provavelmente aumentou o paludismo, mas evitou um número comparável de casos na África Ocidental”.
Em vários países da África Ocidental, incluindo a Nigéria, o Burquina Faso e o Mali, o aumento das temperaturas poderá reduzir os casos em cerca de 5%. Em países do Sahel particularmente quentes, como o Níger, a Gâmbia e a Guiné-Bissau, os investigadores consideram que a doença poderá, em determinadas condições, ser eliminada.
Na África Ocidental e Central, o aquecimento global poderá evitar entre um e 20 casos por cada mil crianças até ao final do século, dependendo da evolução das emissões de gases com efeito de estufa.
Angola poderão enfrentar maior risco
O cenário poderá ser diferente nas regiões mais frias, onde actualmente o paludismo não constitui um problema de grande dimensão, nomeadamente nas zonas de maior altitude da África Oriental e em partes da África Austral.
Nessas áreas, o aumento das temperaturas poderá tornar o ambiente progressivamente mais favorável à sobrevivência e propagação dos mosquitos transmissores da doença.
O estudo aponta para aumentos de cerca de 5% dos casos nas terras altas da Etiópia, bem como no Quénia e no Burundi, e prevê igualmente aumentos significativos em países como Angola, Zâmbia e no nordeste da África do Sul.
Até 2100, o risco de transmissão poderá aumentar em cerca de 20% em algumas regiões, incluindo partes do Vale do Rift e da costa meridional de África.
Perante estas projecções, os autores defendem que as regiões que deverão ficar mais expostas adoptem desde já programas de combate à malária mais agressivos, sobretudo nas zonas mais frias da África subsaariana, onde a doença poderá ganhar terreno e onde os sistemas de saúde poderão ter menor experiência no seu controlo.
Os investigadores defendem igualmente a necessidade de limitar o aumento futuro da temperatura global de três para menos de dois graus Celsius. Segundo o estudo, essa redução poderia evitar, em média, cinco casos de paludismo por cada mil crianças na África Oriental e Austral.
África concentra a maioria das mortes
A malária continua a ser uma das principais causas de mortalidade infantil em África.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que, em 2024, a doença provocou cerca de 610 mil mortes em todo o mundo. Aproximadamente 95% dessas mortes ocorreram em África, o equivalente a cerca de 580 mil óbitos.
O estudo alerta, assim, para uma alteração do mapa geográfico da doença: enquanto o calor extremo poderá tornar algumas zonas africanas demasiado quentes para a transmissão da malária, outras regiões, actualmente mais frias, poderão tornar-se progressivamente mais favoráveis à sua propagação.