Partido histórico acusa regime de Bissau de pretender eliminar Simões Pereira

A comissão permanente do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) acusou ontem, quinta-feira, dia 9, o regime de Bissau de querer eliminar o líder, Domingos Simões Pereira, política e fisicamente.

A acusação consta de um comunicado publicado na página oficial do partido com as conclusões de uma reunião ontem da comissão permanente, que analisou exclusivamente os últimos acontecimentos do que classifica como perseguição ao presidente do partido.

No comunicado lê-se que “o objectivo deste regime, que continua a ser dirigido à distância por Umaro Sissoco Embalo (antigo Presidente da República), é claro: afastar o presidente Domingos Simões Pereira da vida política e, eventualmente, eliminá-lo fisicamente”.

Considerado o principal líder da oposição, Simões Pereira encontra-se privado de liberdade desde o golpe militar de 26 de Novembro de 2025 que interrompeu as eleições gerais, em que, pela primeira vez, não participou o histórico PAIGC nem o líder do partido.

Afastados das eleições por decisão judicial, Simões Pereira é agora alvo de um processo em que é suspeito de participação numa alegada tentativa de golpe de Estado que terá ocorrido em Outubro de 2025, cerca de um mês antes das eleições gerais e do golpe militar consumado.

A oposição tem considerado o golpe, em que os militares tomaram o poder, uma encenação do anterior Presidente Umaro Sissoco Embaló, que concorreu a um segundo mandato nas eleições de Novembro de 2025.

O candidato da oposição, Fernando Dias da Costa, reclamou vitória na primeira volta, apoiado pelo PAIGC.

Para a comissão permanente do partido, Embaló “não perdoa o facto do presidente do PAIGC, impedido de concorrer às eleições (…), ter tido, com o seu inequívoco apoio, um papel fundamental na vitória logo à primeira volta do candidato Fernando Dias da Costa nessas eleições”.

“Por outro lado, no seu mísero calculismo político, Umaro Sissoco Embaló acredita que o afastamento da vida política de Domingos Simões Pereira, pela via judicial, ou através da sua eliminação física, aumentaria a probabilidade de finalmente vencer as próximas eleições presidenciais, em que ainda sonha poder concorrer”, acrescenta.

Simões Pereira acusado de arquitectar um Golpe de Estado

Recorde-se que os militares no poder na Guiné-Bissau marcaram para 6 de Dezembro novas eleições gerais, depois de terem alterado a Constituição, que passa a dar mais poderes ao Presidente, e vai ser submetida a referendo nacional a 30 de Agosto.

O PAIGC argumenta que o presidente do partido “tem sido vítima de todo o tipo de arbitrariedades” e que “as autoridades de facto passaram os últimos oito meses a tentar fabricar um processo judicial desprovido de qualquer credibilidade para justificar a restrição da liberdade”.

A comissão permanente considera “caricato” que a acusação encontrada contra Simões Pereira seja a “alegada participação numa pretensa tentativa de golpe de Estado, em Outubro de 2025” e que “aqueles que consumaram um golpe de Estado estejam tão determinados a perseguir e a tentar condenar um cidadão por alegada tentativa de golpe de Estado.”

O presidente do PAIGC já foi ouvido três vezes no Tribunal Militar, onde decorre o processo, e está a aguardar a decisão do juiz de instrução sobre um requerimento do Ministério Público para que lhe seja aplicada a medida de coação mais gravosa, a prisão preventiva.

Recorde-se que Simões Pereira se encontra em prisão domiciliária desde final de Janeiro e depois de ter estado dois meses preso na Segunda Esquadra, em Bissau.

“Hoje, está mais do que claro que toda esta manipulação da justiça visa apenas legitimar à posteriori a privação de liberdade do presidente Domingos Simões Pereira, mesmo que para o efeito seja necessário violar princípios, leis e regras”, lê-se no comunicado.

A comissão permanente do PAIGC reitera a exigência de libertação imediata e incondicional de Simões Pereira e repudia o que considera “a terrível perseguição política e judicial” de que tem sido alvo.

Responsabiliza ainda “o regime por tudo quanto possa vir a acontecer à sua vida ou à sua integridade física” e apela a todas as organizações internacionais e regionais, particularmente a União Africana e a CEDEAO, para que continuem a acompanhar a Guiné-Bissau e a fazer respeitar as decisões tomadas ao mais alto nível por estas organizações.

A comissão permanente do PAIGC convida ainda, “mais uma vez, o Comando Militar a um diálogo sério e construtivo com as forças políticas representativas da sociedade guineense, tendo em vista encontrar soluções para a saída da crise política e o retorno à normalidade constitucional”.

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