El Niño poderá provocar mais de 450 mil mortes associadas ao calor
Os investigadores alertam que o impacto deverá ser particularmente severo nos países mais pobres, onde as populações enfrentam já problemas de insegurança alimentar e elevados custos de energia, num contexto agravado pelas alterações climáticas e pelas consequências dos conflitos e da instabilidade geopolítica.
O actual episódio do fenómeno climático El Niño poderá estar associado a até 451 mil mortes adicionais provocadas pelo calor em todo o mundo até ao final de Fevereiro, devido ao aumento das temperaturas, às secas, aos incêndios e à redução dos recursos hídricos, segundo um estudo divulgado esta quinta-feira, 24 de Setembro.
A investigação, realizada pelo Laboratório de Impacto Climático da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, estima que poderão ocorrer «até 451.000 mortes adicionais relacionadas com o calor entre Junho e o final de Fevereiro», em comparação com o número esperado num ano normal.
Os investigadores alertam que o impacto deverá ser particularmente severo nos países mais pobres, onde as populações enfrentam já problemas de insegurança alimentar e elevados custos de energia, num contexto agravado pelas alterações climáticas e pelas consequências dos conflitos e da instabilidade geopolítica.
O estudo combina previsões sazonais de temperatura com estimativas locais sobre o impacto das temperaturas elevadas na mortalidade em mais de 24 mil regiões de todo o mundo.
Michael Greenstone, cofundador do Laboratório de Impacto Climático e coautor da investigação, considera que os riscos associados ao calor poderão prolongar-se para além de Fevereiro, mesmo que o actual episódio de El Niño termine nessa altura. Segundo o investigador, os efeitos do fenómeno poderão continuar a fazer-se sentir até ao próximo Verão.
«O calor é mais perigoso em locais que já são quentes e relativamente pobres», afirmou Greenstone, salientando que um aumento de apenas alguns graus pode representar um risco muito maior para as populações expostas a temperaturas elevadas.
Nos países mais ricos, acrescentou, existem geralmente melhores condições para enfrentar as ondas de calor, devido ao maior acesso a sistemas de ar condicionado, ao abastecimento de água fiável e a serviços de saúde com maior capacidade de resposta.
África entre as regiões mais afectadas
De acordo com as projecções do relatório, o Sahel deverá ser uma das regiões mais afectadas. A faixa semiárida situada a sul do deserto do Sara poderá registar cerca de 66.800 mortes adicionais associadas ao calor.
Também o Sul e o Sudeste Asiático e algumas zonas da América Latina deverão enfrentar impactos significativos. Os investigadores estimam cerca de 19.400 mortes adicionais relacionadas com o calor nas Filipinas, Vietname, Tailândia e Camboja, 19.300 na Indonésia, 15.800 na Índia e 13.300 no Brasil.
Os autores salientam, contudo, que medidas de prevenção, como sistemas de alerta para ondas de calor e a criação de centros de arrefecimento, poderiam evitar milhares de mortes.
O El Niño é um fenómeno climático natural que ocorre, em regra, a cada dois a sete anos e pode prolongar-se por nove a 12 meses. O episódio registado em 2023 e 2024 contribuiu para que esses dois anos fossem considerados os mais quentes desde que existem registos.
Segundo a Organização Meteorológica Mundial, não existem provas de que as alterações climáticas estejam a aumentar a frequência ou a intensidade dos episódios de El Niño. No entanto, o aquecimento global pode amplificar os seus efeitos.
O Laboratório de Impacto Climático estima que, durante o actual episódio, as temperaturas globais sobre as áreas terrestres poderão atingir valores cerca de 1,2 graus Celsius superiores aos registados num ano normal, contribuindo para mais 44% de dias de calor extremo.
Os investigadores consideram que as condições observadas durante este El Niño podem constituir uma antecipação de cenários que as alterações climáticas poderão tornar mais frequentes dentro de cerca de duas décadas.
Para os autores, o actual episódio representa, por isso, uma oportunidade para identificar as regiões mais vulneráveis e adoptar medidas de adaptação capazes de reduzir a mortalidade associada ao calor.