Uma em cada três crianças africanas vive sem água potável

Mais de metade das crianças do continente não dispõe de saneamento adequado, numa crise que se agrava e afecta sobretudo a região do Sahel.

Cerca de uma em cada três crianças africanas não tem acesso a água potável e mais de metade vive sem saneamento adequado, uma situação que tende a agravar-se e que está a provocar doenças, abandono escolar, mortes e migrações, alertou a coordenadora da UNICEF, Martina Rama, citada pela agência Lusa.

Os problemas relacionados com a falta de água, saneamento e higiene, abrangidos pelo programa WASH das Nações Unidas, afectam vários países africanos, mas assumem particular gravidade na região do Sahel, faixa semiárida que atravessa o continente de oeste para leste.

Dados relativos a 2025, compilados pela UNICEF e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), ainda não publicados, indicam que cerca de 28% das crianças africanas não têm acesso a água potável, segundo Martina Rama, responsável pelo programa WASH.

“Há quase 200 milhões de crianças em África sem acesso a água corrente”, alertou a especialista, salientando que o número quase duplica quando se considera a falta de saneamento adequado.

As consequências são particularmente graves para as crianças com menos de cinco anos, cujo sistema imunitário é ainda mais vulnerável. A falta de água e saneamento está associada a doenças como diarreia, infecções respiratórias, desnutrição e infecções provocadas por parasitas.

Os últimos dados disponíveis, referentes a 2019, apontavam para a morte de cerca de 264 mil crianças africanas com menos de cinco anos devido a doenças relacionadas com a falta de acesso a água potável e saneamento.

Embora as crianças estejam entre os grupos mais afectados, as meninas enfrentam consequências adicionais. Em muitas comunidades, são elas as principais responsáveis pela recolha de água quando não existe uma torneira nas proximidades de casa.

Segundo Martina Rama, muitas meninas percorrem diariamente uma ou duas horas até aos pontos de abastecimento, onde ainda têm de esperar pela sua vez para recolher água, antes de iniciarem o percurso de regresso a casa.

A tarefa acaba por comprometer o acesso à educação e, em muitos casos, conduz ao abandono escolar precoce. Mesmo aquelas que conseguem permanecer no sistema de ensino enfrentam novos constrangimentos durante a adolescência.

A crise da água e do saneamento ultrapassa, contudo, a esfera individual e familiar. A especialista considera que a dimensão do problema pode ter consequências profundas nas comunidades e nos próprios países, incluindo o agravamento das tensões e o surgimento de conflitos entre populações vizinhas.

Para Martina Rama, o acesso à água, ao saneamento e à higiene constitui, por isso, uma das questões mais urgentes que África terá de enfrentar nos próximos anos.

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