Expedição a planalto remoto de Angola revela dezenas de novas espécies

Uma expedição científica ao remoto planalto de Lisima, em Angola, descobriu dezenas de espécies até então desconhecidas pela ciência, revela o site BBC Wildlife.

Considerada uma das últimas grandes áreas em branco em termos de biodiversidade em África, a exploração aprofundada da bacia hidrográfica superior do Cassai, no planalto leste de Angola, revelou oito espécies de libélulas ainda não descritas, três novas espécies de gafanhotos e cerca de 60 novas espécies de traças e borboletas.
Os resultados, provenientes do Cassai Life Atlas, um estudo sobre biodiversidade realizado pelo ‘The Wilderness Project’ em Fevereiro de 2026, fornecem um panorama essencial da biodiversidade na região de Lisima, situada na Bacia Hidrográfica das Terras Altas de Angola, na província de Moxico, no leste de Angola.

A vasta área de florestas de miombo, zonas húmidas, savanas e lagos de nascente alimenta quatro grandes sistemas fluviais africanos: o Okavango, o Zambeze, o Congo e o Cuanza.
A água proveniente do planalto de Lisima sustenta ecossistemas e comunidades a milhares de quilómetros a jusante, incluindo o Delta do Okavango, classificado pela UNESCO.
Apesar da sua importância ecológica, décadas de guerra civil, a presença persistente de minas terrestres e o extremo isolamento deixaram a região quase totalmente inexplorada pelos cientistas.
A equipa de 16 especialistas africanos e internacionais, apoiada pela Fundação Lisima e pela The HALO Trust, registou 103 espécies de libélulas e donzelinhas, elevando o total conhecido para a região de Lisima para 163. Entre elas, 34 espécies que não tinham sido anteriormente registadas em Lisima, tendo seis sido adicionadas à lista nacional de Angola. Oito espécies ainda não descritas, detectadas pela primeira vez em 2019, estão agora a ser formalmente descritas.

Foram registadas mais de 1000 borboletas e traças, bem como 47 táxons de gafanhotos, cigarras e grilos, incluindo três ainda desconhecidos pela ciência. Espera-se que este número aumente, uma vez que muitos espécimes de gafanhotos e mantis ainda aguardam análise por parte de especialistas. Também foram recolhidos besouros, aranhas e escorpiões, mas os resultados só serão conhecidos depois de os espécimes terem sido examinados em laboratório.
O levantamento herpetológico registou 24 anfíbios e 23 répteis, incluindo a víbora do Gabão, a víbora-do-mato-variável, a cobra de Anchieta, a cobra-de-Oates e uma impressionante coleção de espécies de rãs de zonas húmidas.

Levantamento de 320 amostras
Nas grutas, a equipa documentou o morcego-de-folha-redonda-de-Sundevall e o morcego-ferradura-de-Rüppell.
O levantamento botânico recolheu mais de 320 amostras em habitats como a savana de miombo, prados húmidos, dambos, floresta pantanosa, margens de rios e ribeiros rochosos.
«Esperávamos que a área fosse diversificada, com base no nosso trabalho anterior nas bacias hidrográficas do Okavango e do Lungwevungu, onde a rotatividade de espécies nas florestas de miombo angolanas é muito elevada», afirmou Rob Taylor, ecologista conservacionista e líder da expedição.

«A descoberta mais surpreendente foi a forte influência da floresta congolesa na bacia hidrográfica superior do Cassai. As florestas pantanosas e as florestas de galeria alteraram a nossa compreensão da área: não se trata simplesmente de uma floresta de miombo, mas sim de uma zona de transição complexa entre habitats importantes e influências biogeográficas.
“O resultado do estudo revelou uma diversidade superior à que esperávamos. A abundância era frequentemente baixa, em parte devido à pobreza de nutrientes destes sistemas, mas a diversidade de espécies especializadas e invulgares foi notável.»
Até 2035, o ‘The Wilderness Project’ pretende estudar e ajudar a proteger 1,2 milhões de quilómetros quadrados de áreas selvagens de água doce africanas insubstituíveis, em parceria com comunidades locais, governos, investigadores e ONG, incluindo o estabelecimento de linhas de base hidrológicas e ecológicas detalhadas das nascentes e bacias hidrográficas, em grande parte não documentadas, das maiores bacias hidrográficas de África.

A cobertura florestal está a diminuir, os rios estão a ficar mais turvos devido à erosão e à sedimentação, e os habitats naturais estão a tornar-se mais pequenos, mais fragmentados e cada vez mais isolados. “O resultado mais importante desta expedição é que esta área já não é um ponto em branco”, afirma Taylor. “Os registos de espécies, as fotografias e os dados sobre o habitat fornecem agora provas que podem servir de base para o planeamento da conservação, as decisões sobre o uso do solo e a protecção futura.”

Notícias relacionadas
Comentários
Loading...