Um olhar país a país sobre a primeira viagem papal a África
Entre hoje – dia 13 – e 23 de Abril, o Papa Leão XIV inaugura um ciclo de viagens ao continente africano, visitando quatro países, entre os quais Angola. Abaixo, ficam os principais pontos do roteiro papal.
Em relação aos temas Leão XIV deverá abordar a convivência entre cristãos e muçulmanos, a sobre-exploração dos recursos naturais e humanos da região, a corrupção e a migração.
ARGÉLIA: 13–15 de Abril
A etapa na Argélia, que hoje teve início, tem claramente o maior significado pessoal para Leão XIV, dadas as suas ligações a Santo Agostinho, inspiração da sua ordem religiosa, que viveu e morreu ali. O Santo Padre visitará Annaba, a actual Hipona, onde o santo do século V foi bispo.
A migração e a convivência entre cristãos e muçulmanos deverão ser outros temas centrais na Argélia, uma antiga colónia francesa e um país maioritariamente muçulmano sunita na costa mediterrânica do Norte de África. O Sumo Pontífice prestará homenagem aos migrantes mortos em naufrágios ao tentarem chegar à Europa e visitará a Grande Mesquita de Argel.
Recorde-se que o ano passado, os legisladores argelinos votaram para declarar a colonização francesa do país como um crime, aprovando uma lei que exige a restituição de bens confiscados pela França durante os seus 130 anos de domínio, entre outras medidas destinadas a reparar injustiças históricas.
CAMARÕES: 15–18 de Abril
Um dos pontos altos da visita de Leão XIV aos Camarões será um “encontro pela paz” que o Papa irá presidir na cidade de Bamenda, no noroeste, no dia 16 de Abril, com testemunhos de um chefe tradicional Mankon, um moderador presbiteriano, um imã e uma freira católica.
As regiões ocidentais dos Camarões têm sido assoladas por combates desde que separatistas anglófonos lançaram uma rebelião em 2017, com o objectivo declarado de se separarem da maioria francófona e estabelecerem um Estado independente de língua inglesa. O conflito já matou mais de 6.000 pessoas e deslocou mais de 600.000, segundo o International Crisis Group, um centro de análise.
O país também enfrenta combates no norte envolvendo militantes islamistas radicais do Boko Haram.
Os Camarões possuem importantes reservas de petróleo, gás natural, cobalto, bauxite, minério de ferro, ouro e diamantes. O sector extractivo representa quase um terço das exportações do país, segundo a Iniciativa para a Transparência das Indústrias Extractivas.
No entanto, organizações de defesa dos direitos humanos e a Igreja Católica alertam que as receitas da extração raramente chegam às comunidades rurais e indígenas que vivem mais perto das operações mineiras e de perfuração, enquanto empresas estrangeiras e uma pequena elite nacional captam a maior parte dos lucros.
Embora empresas francesas e inglesas tenham dominado durante muito tempo a indústria extrativa nos Camarões, empresas chinesas têm investido fortemente no país nos últimos anos, especialmente nas regiões mineiras de ouro no leste.
No ano passado, especialistas das Nações Unidas relataram graves danos de direitos humanos e ambientais resultantes do uso de mercúrio nas operações de mineração de ouro no leste dos Camarões.
A corrida ao ouro no leste do país também levou centenas de crianças a abandonar a escola para procurar ouro, arriscando a vida em minas improvisadas por minério que vale cerca de um dólar no mercado negro local, segundo a UNICEF.
ANGOLA: 18–21 de Abril
Em Angola, onde cerca de 58% da população é católica, Leão XIV irá celebrar missa no Santuário de Nossa Senhora da Muxima, um santuário mariano que se tornou um dos mais importantes locais de peregrinação católica do país.
A igreja foi construída pela primeira vez no final do século XVI pelos portugueses, após estabelecerem uma fortaleza em Muxima. Tornou-se um ponto-chave no comércio transatlântico de seres humanos promovido por Portugal, como local onde pessoas escravizadas eram batizadas antes de serem enviadas em navios para as Américas.
Actualmente, Angola é o quarto maior produtor de petróleo em África e está entre os 20 maiores produtores do mundo, segundo a Agência Internacional de Energia. É também o terceiro maior produtor mundial de diamantes e possui importantes reservas de ouro e minerais críticos muito procurados.
O país, com cerca de 38 milhões de habitantes, tornou-se independente de Portugal em 1975, mas ainda carrega as marcas de uma devastadora guerra civil que começou logo após a independência e durou, com interrupções, 27 anos, terminando apenas em 2002. Acredita-se que mais de meio milhão de pessoas tenham morrido.
Em Angola, Leão deverá dirigir-se especialmente aos jovens, levando uma mensagem de esperança e reconciliação, de acordo com o Vaticano.
GUINÉ-EQUATORIAL: 21–23 de Abril
É o último país deste primeiro périplo papal pelo continente africano.
A descoberta de petróleo offshore, em meados da década de 1990, transformou praticamente da noite para o dia a economia da Guiné-Equatorial, com o petróleo a representar actualmente quase metade do seu PIB e mais de 90% das exportações, segundo o Banco Africano de Desenvolvimento.
Ainda assim, mais de metade da população deste Estado petrolífero autoritário continua a viver na pobreza, de acordo com o Banco Mundial no ano passado.
Única antiga colónia espanhola na África Subsaariana é governada pelo presidente há mais tempo no poder em África, Teodoro Obiang Nguema, no poder desde 1979, sendo acusado de corrupção generalizada e autoritarismo.
Várias organizações de defesa dos direitos humanos, incluindo a Human Rights Watch, documentaram como as receitas têm enriquecido a família governante Obiang em vez da população em geral, onde pelo menos 70% dos cerca de 2 milhões de habitantes vivem na pobreza.
O governo do país também enfrenta acusações generalizadas de assédio, detenções e intimidação de opositores políticos, críticos e jornalistas.
Para além dos impactos negativos das indústrias extractivas, o porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni, afirmou que Leão XIV abordará, durante a viagem, questões de corrupção e o papel adequado das autoridades governamentais.