Economia Azul: Potencial encravado na fraca integração e coordenação
A Economia Azul de Angola está diante de um paradoxo: o País já construiu importantes portos, ferrovias e outras infra-estruturas, mas ainda não conseguiu fazê-los funcionar como uma única engrenagem de produção, transformação e comércio.
O alerta dominou a VI Conferência E&M Economia Azul, realizada, recentemente, em Luanda, sob o tema ‘Do Potencial Marítimo ao Fomento Industrial: Infra-estruturas Portuárias e de Transporte, Transformação e Novas Cadeias de Valor’.
Na abertura, a ministra das Pescas e Recursos Marinhos, Carmen do Sacramento Neto dos Santos, defendeu que Angola precisa de “converter o seu potencial marinho em valor económico que permaneça no País” e melhore a vida dos cidadãos e as receitas para as empresas.
Segundo a Revista E&M, a ministra defendeu uma visão integrada. Pescas, sal, portos, transportes marítimos, construção e reparação naval, petróleo e gás offshore, turismo costeiro, investigação e tecnologia fazem parte de um mesmo ecossistema. “Qualquer decisão que venhamos a tomar no mar produzirá efeitos em terra”, afirmou.
Carlos Borges, Partner e Head of Advisory da KPMG Angola, defendeu que o País deve evoluir do paradigma actual da criação de infra-estruturas, para uma colocação destas infra-estruturas ao serviço da criação de valor”.
E resumiu, quando apresentava a prelecção com o tema ‘Economia Azul e Fomento Industrial’: “A logística não é um fim em si próprio, é um meio. E o ‘betão’ não serve de nada se não criar valor”.
Os números ajudam a medir o que está em causa. Segundo Carlos Borges, a Economia Azul representa entre 300 e 400 mil milhões USD em África e está ligada a quase 50 milhões de empregos. O seu peso no PIB africano poderá ultrapassar os 570 mil milhões USD. O universo inclui pesca, transportes, tecnologia, turismo e actividades em terra que dependem do mar.
Neste modelo, o porto deve ser mais do que um cais: deve funcionar como nó de uma rede que liga plataformas logísticas, indústria e mercados. A actividade portuária cresce 8% ao ano em África, segundo o especialista.Ottoniel Mauro Manuel, administrador da Lobito Atlantic Railway (LAR), defendeu, já na mesa-redonda que discutiu ‘Portos e Corredores Logísticos: Infra-estruturas para Impulsionar a Indústria e o Comércio Marítimo, a ferrovia como indutora de desenvolvimento. O desafio é criar condições para transportar também pescado e sal, incluindo com soluções de frio.
Alcides Paulo, director da Direcção de Dinamização da Rede Nacional de Plataformas Logísticas da ARCCLA (Agência Reguladora de Certificação de Carga e Logística de Angola), anunciou que o sector trabalha para aproximar produção e consumo. Caála (Huambo) foi escolhida para acolher a primeira plataforma logística-piloto. A meta é deixar de ter “infra-estruturas isoladas” e fazê-las funcionar “como um sistema”.
André Reigota, Regional Head do Infrastructure Sector do Standard Bank Group, reforçou a ideia: o Corredor do Lobito não deve ser visto apenas como uma ferrovia. É uma plataforma económica que precisa de centros de distribuição, armazéns, logística e indústria de transformação.
Leia este artigo na íntegra na edição 265 da revista Economia & Mercado, referente ao mês de Outubro, já disponível nas bancas.