Josefa Sacko candidata-se à liderança da FAO com aposta na transformação agrícola
Diplomata aposta na descentralização da organização, na inovação tecnológica e no reforço da produção agrícola para combater a fome e melhorar a segurança alimentar.
Angola lançou oficialmente, em Roma, a campanha da candidatura de Josefa Leonel Correia Sacko ao cargo de directora-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), para o mandato de 2027 a 2031, procurando reforçar a presença africana na liderança das instituições multilaterais e colocar os desafios da agricultura e da segurança alimentar no centro da agenda internacional.
A apresentação da campanha, efectuada ontem, segunda-feira, dia 12, foi conduzida pelo ministro das Relações Exteriores de Angola, Téte António, num momento em que a candidatura conta com o endosso da União Africana (UA) e o apoio da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC). A iniciativa pretende mobilizar os Estados-membros da organização em torno de uma proposta de liderança orientada para a transformação dos sistemas agro-alimentares e para o aumento da capacidade de resposta às necessidades das populações.
A candidatura coloca em evidência questões com impacto directo nas economias africanas, nomeadamente a baixa produtividade agrícola, a vulnerabilidade às alterações climáticas, a pobreza rural e a dependência das importações de alimentos. Para Angola e outros países do continente, a capacidade de aumentar a produção interna e melhorar o rendimento dos produtores constitui um elemento importante para a diversificação económica, a criação de emprego e a redução da exposição aos choques dos mercados internacionais.
Ciência e tecnologia ao serviço da agricultura
Entre as prioridades apresentadas por Josefa Sacko está a utilização da ciência, da inovação e da tecnologia para aumentar a produtividade agrícola e melhorar a eficiência dos sistemas de produção alimentar. A candidata defende igualmente uma maior atenção aos pequenos produtores, às mulheres e aos jovens, segmentos fundamentais para o desenvolvimento rural e para a sustentabilidade das cadeias de valor agro-alimentares.
A proposta inclui o empoderamento económico das mulheres e da juventude, procurando ampliar as oportunidades de participação destes grupos na actividade agrícola e no desenvolvimento dos negócios ligados à produção, transformação e comercialização de alimentos.
Outro eixo da candidatura é a descentralização da FAO, com o objectivo de reforçar a capacidade de intervenção da organização junto dos países e das comunidades que enfrentam situações de insegurança alimentar. A intenção passa por valorizar as estruturas regionais, sub-regionais e nacionais, aproximando a assistência técnica das necessidades concretas dos Estados-membros.
A iniciativa surge num contexto em que as alterações climáticas, a irregularidade das chuvas, a degradação dos solos e as dificuldades de acesso a financiamento e tecnologia continuam a limitar o potencial agrícola de várias economias africanas. O reforço da resiliência dos
produtores e a melhoria da gestão dos recursos naturais são, por isso, questões relevantes para a agenda da organização.
Experiência na agricultura e na cooperação internacional
Engenheira agrónoma e diplomata, Josefa Sacko exerce actualmente funções como embaixadora de Angola em Itália e representante permanente junto das agências das Nações Unidas sediadas em Roma, incluindo a FAO, o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) e o Programa Alimentar Mundial (PAM).
Entre 2017 e 2025, desempenhou o cargo de comissária da União Africana para a Agricultura, o Desenvolvimento Rural, a Economia Azul e o Ambiente Sustentável. Foi também secretária-geral da Organização Inter-Africana do Café, onde trabalhou na promoção da cooperação entre países produtores e na valorização do sector cafeeiro africano.
Este percurso constitui uma das bases da candidatura angolana, que procura associar experiência técnica e diplomática à definição de políticas capazes de responder aos desafios da produção alimentar, do desenvolvimento rural e da sustentabilidade ambiental.
A aposta de Angola insere-se igualmente numa estratégia de participação mais activa do continente africano nos organismos internacionais, numa altura em que a segurança alimentar assume crescente importância nas agendas de desenvolvimento económico e social.
Eleição prevista para 2027
A eleição do próximo director-geral da FAO está prevista para Julho de 2027, em Roma, cabendo aos Estados-membros escolher o responsável pela condução da organização durante o mandato de 2027 a 2031.
Até à votação, a capacidade de mobilização diplomática e a apresentação das prioridades programáticas serão elementos centrais da campanha de Josefa Sacko. O apoio da União Africana e da SADC representa um respaldo regional à candidatura, mas a escolha final dependerá do processo eleitoral no seio da organização.
Para Angola, a candidatura constitui também uma oportunidade de afirmar a sua participação na governação multilateral e de contribuir para o debate internacional sobre agricultura, desenvolvimento sustentável e combate à fome.
O desafio que se coloca à futura liderança da FAO será transformar as prioridades anunciadas em respostas concretas, capazes de aumentar a produtividade, melhorar o acesso aos alimentos e reforçar a capacidade dos países para desenvolver sistemas agro-alimentares mais resilientes.