Abate de 23 elefantes para carne nas celebrações da independência do Botswana está a gerar polémica entre os conservadores da vida animal
O Botswana, que alberga a maior população de elefantes do mundo, realizou ontem quarta-feira, dia 30, uma série de festividades nacionais para assinalar o 60.º aniversário da independência face à Grã-Bretanha.
Uma licença emitida pelo Ministério do Ambiente e Turismo, divulgada pelos meios de comunicação social locais, autorizou a caça de 23 elefantes e de outros animais selvagens para fins “complementares”.
A Elephant Protection Society, organização com sede no Botswana, alertou que a decisão poderá prejudicar os esforços de conservação. O presidente da organização, Oaitse Nawa, disse à BBC que os elefantes necessitam de maior protecção.
Nawa advertiu que o abate de elefantes para as celebrações poderá incentivar a caça furtiva, ao transmitir a ideia de que matar estes animais é aceitável quando existe autorização governamental.
«Os elefantes perderam as suas estruturas sociais porque estão constantemente a ser empurrados de um lugar para outro pelos disparos», afirmou.
Vários utilizadores das redes sociais no país também manifestaram preocupação com o consumo da carne de caça, numa altura em que o Botswana enfrenta um surto de febre aftosa, que levou as autoridades a adoptar medidas para conter a propagação da doença.
Tshenatshe Monwela, ancião de Maun, cidade turística no noroeste do Botswana, disse aos meios de comunicação locais que a sua comunidade deveria ter recebido carne de búfalo. Segundo Monwela, os elefantes possuem particular importância cultural e ecológica e o papel histórico desempenhado pelo Botswana na protecção da fauna bravia e do gado deveria ter sido tido em conta na distribuição da carne destinada às celebrações do aniversário da independência.
Festividades em todo o país
O Governo do Botswana organizou uma série de iniciativas para assinalar o jubileu de diamante da independência, incluindo um Carnaval na capital, Gaborone, além de manifestações culturais, concertos e competições desportivas.
A carne de caça foi servida durante os tradicionais banquetes associados às comemorações do Dia da Independência. Os 23 elefantes foram distribuídos por oito distritos do país.
Entretanto, os meios de comunicação locais divulgaram imagens de diferentes regiões do país mostrando residentes reunidos junto a carcaças de elefantes, alguns com facas nas mãos, enquanto partilhavam a carne.
No distrito de Chobe, uma das zonas mais ricas em fauna bravia do norte do Botswana, junto às fronteiras com a Namíbia, Zâmbia e Zimbabwe, um deputado local manifestou preocupação depois de residentes terem alegadamente recolhido carne directamente de uma carcaça colocada junto a uma escola.
O parlamentar considerou que o sistema poderia provocar aglomerações e prejudicar idosos, mulheres grávidas e pessoas com deficiência. Sugeriu, por isso, que a carne fosse processada e distribuída em embalagens de cinco ou dez quilogramas, de modo a melhorar as condições de higiene e assegurar uma distribuição mais equitativa.
«Por uma questão de dignidade, justiça e higiene pública, apelamos respeitosamente ao caçador e às autoridades competentes para que as futuras distribuições sejam devidamente organizadas», escreveu no Facebook o deputado Simasiku Mapulanga, anexando fotografias de pessoas a disputar a carne junto à carcaça de um elefante.
A carne de elefante é consumida em algumas comunidades de regiões com elevada concentração de fauna bravia, sobretudo quando a carne proveniente de caçadas legais é distribuída localmente, mas não constitui um alimento consumido diariamente.
O Botswana mantém igualmente uma regulamentação rigorosa sobre a carne de caça, sendo, em geral, necessário comprovar que a sua posse resulta de uma caçada legal.
Debate sobre a gestão dos elefantes
A decisão reacendeu um longo e, por vezes, intenso debate no Botswana sobre a forma como o país deve gerir a sua extensa população de elefantes.
O Botswana possui mais de 130 mil elefantes e as comunidades que vivem nas zonas de coexistência com estes animais queixam-se há muito tempo da destruição de culturas agrícolas, dos danos em propriedades e, em alguns casos, de ataques mortais a pessoas.
O Governo defende a caça regulamentada como uma das formas de gerir a população de elefantes e reduzir os conflitos entre seres humanos e animais selvagens, ao mesmo tempo que permite gerar receitas para as comunidades.
O país proibiu a caça de troféus em 2014, durante a presidência de Ian Khama, mas levantou a proibição cinco anos mais tarde, já sob a liderança de Mokgweetsi Masisi.
A caça prosseguiu durante a presidência de Duma Boko, que derrotou Masisi nas eleições de 2024. O Governo afirma que as receitas provenientes da caça são utilizadas para apoiar a conservação e o desenvolvimento das comunidades locais.
O ministro do Ambiente e Turismo, Wynter Mmolotsi, disse ao Parlamento, no ano passado, que quotas especiais de caça de elefantes geraram 15,6 milhões de pulas, cerca de 1,1 milhões de dólares, em 2025, destinados a projectos em zonas onde existem populações de elefantes.
Organizações de conservação, contudo, têm questionado se os níveis actuais de caça são sustentáveis. Os defensores da política de caça do Botswana, por seu lado, argumentam que as críticas internacionais ignoram frequentemente os custos suportados pelas comunidades rurais que vivem junto de uma das maiores concentrações de elefantes do mundo.
Segundo estas comunidades, os elefantes destroem culturas agrícolas e infra-estruturas e representam um perigo para as populações, sobretudo à medida que o seu território se sobrepõe cada vez mais a explorações agrícolas e zonas habitadas.