Sítios da UNESCO são uma “tábua de salvação para a biodiversidade”, refere organização

Os sítios classificados pela UNESCO beneficiam pessoas e natureza e são uma “tábua de salvação para a biodiversidade”, indica um relatório da agência da ONU, que alerta também para a “crescente pressão” a que estes lugares estão sujeitos.

Quase 90% dos sítios enfrentam elevados níveis de stress ambiental e os riscos relacionados com o clima aumentaram 40% na última década, diz a instituição, alertando que mais de um em cada quatro sítios poderá atingir pontos críticos de inflexão até 2050, com impactos potencialmente irreversíveis.

O balanço é feito num relatório da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) que, pela primeira vez, faz uma análise de todos os sítios, destacando a importância para a natureza: enquanto as populações globais de animais selvagens diminuíram 73% desde 1970, as que se encontram dentro das áreas protegidas pela UNESCO permaneceram comparativamente estáveis.

“Pessoas e Natureza nos Sítios da UNESCO: Contribuições Globais e Locais” é o título do relatório, que examina pela primeira vez as três categorias da instituição, o Património Mundial, as Reservas da Biosfera e os Geoparques Mundiais.

Todos juntos, formam uma rede de 2.260 sítios, abrangendo mais de 13 milhões de quilómetros quadrados, uma área maior do que a China e a Índia juntas.

O Património Mundial protege mais de 1.200 lugares com um valor universal excepcional (como monumentos), as Reservas da Biosfera são mais de 700 em quase centena e meia de países e protegem a biodiversidade e o desenvolvimento sustentável, e os mais de 200 Geoparques Mundiais protegem a herança geológica mundial.

A propósito do relatório, o director-geral da instituição, Khaled El-Enany, afirmou que dentro dos territórios UNESCO as comunidades prosperam, o património da humanidade perdura e a biodiversidade mantém-se, enquanto noutros locais “entra em colapso.”

Citado num comunicado, o responsável apelou a que se aumente a ambição e se reconheça os sítios da UNESCO como “activos estratégicos no combate às alterações climáticas e à perda de biodiversidade.”

Locais Património da Humanidade albergam 900 milhões

De acordo com o relatório, os sítios UNESCO abrangem mais de 60% das espécies mapeadas globalmente, sendo que cerca de 40% delas não se encontram em mais nenhum lugar da Terra.

Estes sítios armazenam cerca de 240 gigatoneladas de carbono, o equivalente a quase duas décadas das emissões globais actuais, e as suas florestas representam aproximadamente 15% do carbono absorvido anualmente pelas florestas de todo o mundo.

Todos juntos, estes locais albergam quase 10% da população mundial (900 milhões de pessoas) e neles estão documentadas mais de mil línguas (representando 15% de todas as línguas vivas). Neles é gerado 10% do PIB global.

Os autores do documento alertam para a necessidade de medidas que impeçam o desaparecimento dos glaciares, o colapso dos recifes de coral, o declínio de espécies, o stress hídrico ou a transformação das florestas em fontes de carbono em vez de serem sumidouros.

O relatório deixa também sugestões, como restaurar os ecossistemas para reconstruir a resiliência, desenvolver de forma sustentável, integrar mais os sítios da UNESCO nos planos climáticos globais, e governar de forma mais inclusiva.

O relatório “mostra algo poderoso, que as pessoas e a natureza podem viver juntas, mas mostra ainda algo mais importante, que os sítios designados pela UNESCO já têm soluções efectivas e operacionais para os desafios mais prementes do mundo”, disse a directora-geral adjunta da instituição para as ciências naturais, a engenheira moçambicana Lídia Brito, na apresentação do documento.

O especialista do Centro do Património Mundial da UNESCO Tales de Carvalho Resende, um dos principais coautores do relatório, disse na mesma altura que o documento demonstra claramente que os sítios são o resultado de uma longa história de interação entre as pessoas e a natureza, “uma história de coexistência, equilíbrio e cuidado ao longo de gerações”.

Refira-se que em Angola há um lugar classificado pela UNESCO como “Património Mundial da Humanidade”: a cidade de Mbanza Kongo, mais concretamente vestígios da capital do antigo Reino do Congo. O local, localizado na actual província do Zaire, inclui ruínas, tradições vivas e sítios como a antiga catedral (Kulumbimbi), considerada uma das mais antigas da África Subsaariana.

Para além da cidade de Mbanza Congo, Angola tem propostas mais três candidaturas a este estatuto: o Parque Nacional da Kissama; o Parque Nacional da Iona e a Serra da Leba.

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