Morreu o escritor português que trouxe a guerra de libertação de Angola para várias das suas obras
Morreu na manhã de hoje, quinta-feira, dia 5, em Lisboa, António Lobo Antunes, um dos nomes maiores da literatura de língua portuguesa contemporânea. O escritor tinha 84 anos, adiantou o jornal português ‘Expresso’.
Ao longo de mais de quatro décadas, António Lobo Antunes construiu uma obra singular e exigente, marcada por uma linguagem intensa, fragmentada e profundamente introspectiva, na qual sobressaem a memória da Guerra Colonial, o trauma, a família e a condição humana. Foi, durante décadas, apontado como candidato recorrente ao Prémio Nobel da Literatura.
António Lobo Antunes nasceu em Lisboa, a 1 de Setembro de 1942. Licenciou-se em Medicina pela Universidade de Lisboa, em 1969, tendo-se especializado em Psiquiatria, área que exerceu durante vários anos no Hospital Miguel Bombarda.
Entre 1971 e 1973 combateu na guerra do ultramar, como médico do exército português, em várias regiões de Angola.
Em 1985, decidiu abandonar a carreira médica para se dedicar exclusivamente à escrita.
A estreia literária aconteceu em 1979, com o romance ‘Memória de Elefante’, obra que marcou o início de um percurso literário profundamente ligado à experiência pessoal e profissional do autor. No mesmo ano, publicou ‘Os Cus de Judas’, um dos seus livros mais emblemáticos, centrado na vivência da Guerra Colonial.
Na obra de Lobo Antunes, Angola surge sobretudo como lugar de guerra e violência, constituindo um trauma psicológico para os soldados portugueses. Angola é um cenário de fim do império, é um espaço de culpa, absurdo e degradação moral, brutal e caótico aos olhos das forças portuguesas.
Seguiram-se obras como ‘Conhecimento do Inferno’ (1980) e ‘Explicação dos Pássaros’ (1981), romances onde se cruzam a memória da guerra, o quotidiano hospitalar e uma escrita introspectiva e exigente, características que rapidamente afirmaram António Lobo Antunes como uma das vozes mais marcantes da literatura portuguesa contemporânea.
Estas primeiras obras consolidaram a notoriedade do escritor junto do público e da crítica, tornando-o um dos autores mais lidos e debatidos em Portugal e lançando as bases de uma carreira literária que se prolongaria por mais de quatro décadas.
Em Junho de 2025, foi condecorado por Marcelo Rebelo de Sousa com a Grã-Cruz da Ordem de Camões, de forma a distinguir a sua carreira literária.