Os 0,1% mais ricos poluem mais do que 3,5 mil milhões de pessoas
Os 0,1% mais ricos do mundo, um grupo de cerca de oito milhões de pessoas, são responsáveis por níveis de poluição superiores aos produzidos, em conjunto, por 3,5 mil milhões de pessoas mais pobres do planeta. A conclusão consta de uma análise da Oxfam, divulgada ontem, segunda-feira, dia 26, antes da realização da 31.ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP31), marcada para Novembro, na Turquia.
Segundo a confederação internacional de organizações de combate à pobreza e à desigualdade, cada pessoa pertencente ao grupo dos 0,1% mais ricos contribuiu quase 400 vezes mais para as actuais vagas de calor extremo do que alguém integrado nos 50% mais pobres da população mundial.
No seu conjunto, as emissões deste grupo ultrapassam em mais de três vezes as produzidas por toda a população da África Subsaariana, estimada em 1,3 mil milhões de pessoas.
A análise da Oxfam indica igualmente que o 1% mais rico da população mundial é responsável por 20% do aquecimento global registado desde 1990. Em média, cada pessoa deste segmento emite 100 vezes mais gases com efeito de estufa do que alguém pertencente à metade mais pobre da humanidade.
As consequências destas emissões poderão traduzir-se em 1,9 milhões de mortes adicionais relacionadas com o calor num único ano. Cerca de 78% dessas mortes deverão ocorrer em países de baixo rendimento ou de rendimento médio-baixo, apesar de estes serem responsáveis por apenas 8% das emissões globais.
“Quem menos contribuiu para esta crise está a perder as suas casas, colheitas e, cada vez mais, as suas vidas”, afirmou o director-executivo da Oxfam International, Amitabh Behar, citado num comunicado da organização.
A Oxfam considera que a desigualdade se manifesta também na capacidade de enfrentar os efeitos das alterações climáticas. Enquanto os mais ricos podem recorrer a seguros privados, adquirir habitações em zonas menos expostas aos riscos e contratar serviços particulares de combate a incêndios, grande parte da população mundial permanece vulnerável a inundações, incêndios e situações de insegurança alimentar.
A aviação privada é apontada como um dos exemplos mais expressivos desta disparidade. De acordo com a organização, os jactos privados emitem, em conjunto, em apenas dois segundos, uma quantidade de gases com efeito de estufa equivalente à produzida durante um ano por uma pessoa pertencente aos 50% mais pobres da população mundial.
No estudo intitulado “Índice Destruir e Reconstruir”, a Oxfam apela aos Governos que participarão, em Novembro, na COP31, em Antália, no sul da Turquia, para que reforcem as medidas destinadas a responsabilizar os grandes poluidores.
Entre as propostas apresentadas estão a criação de impostos permanentes sobre a riqueza e os rendimentos elevados, a aplicação de taxas às empresas de combustíveis fósseis e a tributação de bens de luxo com elevadas emissões de gases com efeito de estufa, incluindo os jactos privados.
A organização defende igualmente um aumento substancial do financiamento climático destinado aos países do Sul Global, privilegiando fundos públicos e subsídios em detrimento de empréstimos. Propõe ainda que o financiamento para medidas de adaptação às alterações climáticas seja triplicado até 2035.
As projecções da Oxfam apontam para a possibilidade de cerca de mil milhões de pessoas, aproximadamente 10% da população mundial, serem obrigadas a abandonar os seus locais de residência até 2050 devido à crise climática, com maior incidência nos países do Sul Global.