Angolana vence prémio internacional em Engenharia Química e Biotecnologia

Desde pequena, Teresa Matoso Manguangua Victor sonhou ser uma engenheira química competente, para homenagear o pai, Neves Manguangua, já falecido. O progenitor pertenceu à extinta fábrica inglesa Richitt & Colman Angola LDA, que, nas décadas de 70 e 80, produzia perfumes, cosméticos e produtos de higiene.

Mesmo na brincadeira com as amigas, a menina já afirmava que, um dia, trabalharia numa indústria de nível mundial. “Elas riam-se de mim e achavam-me maluca, uma vez que era filha de um simples funcionário”.

Ao longo dos anos, Teresa mostrou para as amigas que elas estavam completamente equivocadas, porque a menina destemida ganhou uma bolsa de estudo da Organização de Pioneiros Angolanos (OPA). No dia 25 de Outubro de 1984, com apenas 13 anos, embarcou para Cuba.

Essa viagem começou a desenhar melhor a realização de um grande sonho da adolescente, que era ser formada em Engenharia Química. Em Cuba, instalou-se na Ilha da Juventude, onde ingressou na Escola Saidy Vieira Dias Mingas, no âmbito da cooperação bilateral existente entre Angola e aquele país caribenho.

No primeiro ano em Cuba, Teresa foi matriculada na Escola Secundária Básica de Ensino e Campo, tendo concluído esta fase da formação, em 1987.

Quando termina a primeira fase de formação, começou a frequência do ensino médio de Educadora de Circuito Infantil, no Instituto Politécnico Pedagógico “Frank País Garcia”, onde terminou, com uma média de 95/100 valores, em 1991.

Teresa Victor sempre se notabilizou pela excelência no meio de tantos estudantes, por isso, um ano depois de ingressar no ensino médio, isto é, em 1988, frequentava, em simultâneo, o Pré-universitário em Ciências Físicas, na Faculdade Obrera y Campesina “Capitán Orestes Acosta Herrera”, em Santiago de Cuba.

“E neste instituto pré-universitário, matriculei-me apenas nas disciplinas de Matemática, Química, Física e Biologia, com excepção das cadeiras sociais, porque tínhamos a liberdade de fazer essas escolhas”, esclareceu a engenheira química.

Teresa Victor terminou a formação pré-universitária com 98,6/100 valores. “O meu foco ali era mesmo só estudar. Jurei para mim mesma que voltaria a Angola com um diploma de mérito, para ser entregue ao meu pai”, explicou, visivelmente emocionada.

Infelizmente, o destino traiu Teresa e a promessa de entregar o diploma ao grande motivador, que foi o pai, não se realizou. Neves Manguangua morreu, na madrugada de 3 de Dezembro de 1989, com 46 de anos.

“O meu pai estava em casa, sentado com os meus irmãos, quando uma bala incendiada, surgida do nada, encravou-o ali mesmo. E, infelizmente, até agora não conseguimos saber de onde saiu aquele disparo”, disse, vertida em lágrimas.

Esse momento de luto, foi duro para Teresa, por ter estado distante da família. Como não suportava viver sem essa mágoa, decidiu, em 1991, regressar ao país e visitar o lugar onde está enterrado o pai.

No país, Teresa Victor permaneceu até 1994, altura que regressou a Cuba e ingressou no Instituto Superior Pedagógico “Enrique José Varona”, para fazer licenciar-se em Pedagogia, na especialidade de Química.

Novo desafio em Londres

Enquanto frequentava o ensino superior, Teresa engravidou do primeiro filho, actualmente tem 27 anos. Apesar da gestação e distância da família, continuou a estudar e, no terceiro ano do curso, em 1997, ganhou outra bolsa de estudo do Governo angolano para a Inglaterra.

“Quando cheguei a Inglaterra, não podia logo ingressar à Faculdade, porque tinha de aprender o inglês”, esclareceu, para adiantar que, no ano seguinte, entrou para a Universidade de Northumbria.

Explicou que, após a formação em inglês, entrou para o segundo ano do curso de Engenharia Química, uma vez que, em Cuba, já tinha frequentado o terceiro ano de Pedagogia em Química.

Em 2001, Teresa Victor realiza o tão almejado sonho de se licenciar em Engenharia Química. Após a Universidade de Northumbria, na Inglaterra, ajudar a tornar esse desejo realidade, a mulher deu um novo passo na vida: casar.

Mas, não só teve a graça do casamento. Em função do excelente aproveitamento na Universidade, foi-lhe atribuída, pelo Engineering and Physical Sciences Research Council (EPSRC), UK e European Research Council, a oportunidade de prosseguir com a formação superior em Química.

Mestrado em Newcastle

Depois de ter aceite o convite para prosseguir os estudos, a recém-casada e mãe de dois meninos, ainda pequenos, na altura, frequentou e conclui o mestrado em Engenharia Química sustentável, na Universidade de Newcastle Upon Tyne, entre 2003 e 2004.

Já alicerçada no campo académico, a mulher, sempre com boas referências, decidiu fazer o terceiro filho, desta vez, nasce-lhe uma menina, em 2004.

“E como não queria desperdiçar a bolsa da Universidade nem o meu tempo, apesar do parto fresco, comecei o curso de doutoramento, num projecto de pesquisa e desenvolvimento na intensificação da produção de antibióticos, usando polímeros micro-porosos”, esclarece. Este projecto, segundo Teresa Victor, era multidisciplinar, uma vez que envolvia, entre outras, as áreas de Engenharia Química e Biotecnologia. E fê-lo assim, por, durante a trajetória académica, ter criado um material inerte microporoso com alta hierarquia estruturada dos poros, elastómera com alta permeabilidade e com capacidade de adsorção de partículas e absorção de líquidos e gases.

Duas patentes

O material inventado pela engenheira química angolana, resultou em duas patentes, sendo a primeira denominada “Process for preparing a functionalized polyHIPE polymer” (Processo para preparar um polímero poliHIPE funcionalizado) e tem aplicação na saúde, na questão da imobilização de células e microrganismos.

Esta patente pode ser usada em Engenharia, na produção de antibióticos, proteínas e enzimas, respectivamente, assim como é, ainda, útil na área do ambiente, para a separação de partículas, em caso de derrame de petróleo bruto e na mitigação dos seus efeitos no meio ambiente.

Quanto à segunda patente, desiganada “Synthetic symbiotic system as soil additives to deliver active” (Sistema simbiótico sintético como aditivos do solo para fornecer ativos), explicou que é direcionada para a área da agricultura e no melhoramento qualitativo de solos, rios e lagos poluídos, daí ser chamado de projecto multidisciplinar.

Depois de vários trabalhos de investigação, Teresa Victor defendeu o doutoramento em Engenheira Química, no dia 25 de Novembro de 2008, pela Universidade de Newcastle uponTyne, na Inglaterra.

Fruto do percurso brilhante como estudante, Teresa trabalhou, por cinco anos, na mesma Universidade, no Departamento de Engenharia Química e Materiais Avançados, como Pesquisadora Associada, num projecto financiado pela União Europeia.

Pelo mesmo período de tempo, a pesquisadora angolana trabalhou, também, na multinacional Nutriss, Lda, onde ocupou a função de engenheira de Desenvolvimento no Processo de Startp.

Regresso e contributo ao país

Depois de quase 20 anos fora de Angola, Teresa Victor decide regressar ao país, em 2019, para dar o seu contributo no desenvolvimento no mundo da investigação, principalmente, nos sectores da Saúde e Ambiente.

Por isso, tão logo chegou decidiu apresentar um projecto ao Ministério da Saúde, a fim de apoiar a investigação das novas estipes da Covid-19 e outros microrganismos. Três anos depois, infelizmente, até ao mo-mento, não foi recebida pela titular da pasta!

O convite, em função da brilhante trajectória académica e investigativa, chegou do Instituto Superior Politécnico de Tecnologias e Ciências (ISPTEC), onde lecciona as cadeiras de Cálculo de Reactores, Engenharia de Processos e Termodinâmica II.

A par da docência, Teresa exerce, também, as funções de investigadora principal dos Projectos de Intensificação de Agro-Processos, Valorização dos Resíduos de Café como Alternativa para a Fertilização dos Solos–FUNDCIT.

Distinguida pela Sociedade para Redes Científicas

Fruto da multidisciplinariedade do seu trabalho, o percurso de Teresa foi levado em consideração. Por essa razão, no dia 3 de Julho, a engenheira química foi galardoada com o Prémio Internacional de Melhor Investigadora nas áreas de Engenharia Química e Biotecnologia, pela Sociedade Internacional para as Redes Científicas (Internacional Society for Scientific Network ISSN) e pelo Congresso Internacional para a Ciência e Tecnologia, em cerimónia ocorrida, em Tiruchirappalli tamail Nadur, cidade da Índia.

Teresa pretende continuar a dar aulas na área de Química, para incentivar os estudantes a investigar cada vez mais. “Na verdade, o que me daria mais prazer é usar o meu doutoramento no apoio ao sector da Saú-de, Ambiente e Agricultura, principalmente, na investigação dos diferentes micro-organismo que causam várias doenças e estragam o cultivo, bem como produzir antibióticos que destruam esses micro-organismos”, rematou.

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